No último sábado (27), o jornalista Mario Sergio Conti traz à tona em um artigo publicado na Folha de S.Paulo suas reflexões sobre a obra “Três Russos”, escrita por Máximo Górki. O próprio título do texto, que reproduzo aqui, revela e critica o conteúdo que se segue. A palavra “tinhoso” é uma referência ao Diabo no contexto nordestino, significando alguém teimoso e insistente. Acredito que essa seja a interpretação que Conti quis dar ao título.
Além disso, o termo “marrento” é utilizado como um adjetivo para descrever Tolstói. Esse termo implica não apenas ousadia e força, mas também uma conotação de arrogância e atrevimento. É surpreendente encontrar uma crítica tão depreciativa direcionada a um dos ícones da literatura russa, um verdadeiro gênio literário. É válido considerar que essa visão de “marrento” pode ser aplicada a Tolstói nas páginas escritas por Górki. Contudo, a crítica parece mais prejudicial do que construtiva.
No artigo de Conti, encontramos afirmações como: “a figura mais espantosa do livro é Gorki, cuja reputação de escritor menor e homem execrável está fundamentada”. Essa afirmação não condiz com a realidade da obra ou da reputação do autor. Em “Três Russos”, quem realmente impressiona é Tolstói. Neste livro, Górki alcança sua melhor produção literária após ter escrito romances e peças teatrais que deixaram marca ao longo das gerações. Para alguém considerado menor, isso já é bastante significativo.
Conti ainda menciona: “Já Tolstói passa a detestar Gorki. Diz a Tchékhov que ele ‘tem alma de espião’, ‘é como um seminarista que foi obrigado a se ordenar e se tornou amargo em relação a tudo’. Entretanto, Tchékhov responde afirmando que ‘Gorki é um homem bom’, enquanto o arrogante Tolstói se recusa a aceitar: ‘ele tem um bico de pato em vez do nariz, e só os miseráveis e perversos têm nariz assim’. E Tchékhov, mesmo sendo médico e devendo ser imparcial, chorou ao narrar essa situação.”
Essa descrição é enganosa. Além de desmerecer Tolstói, revela uma total falta de compreensão acerca do texto de Górki. No livro, há uma passagem relevante:
“Com aquele sorriso simpático e cordial, Tchékhov me contou:
— Você sabe por que Tolstói é tão volúvel com você? Ele sente ciúmes; acredita que Sulerjítski aprecia mais você do que ele mesmo. Ontem ele me disse: ‘Não consigo tratar Górki com sinceridade; nem eu sei o porquê disso.’ Ele se incomoda até com o fato de Suler morar na casa dele. Górki é uma pessoa má; parece um seminarista forçado a tomar o hábito e ficou amargo com tudo isso. Tem alma de informante vindo de uma terra estranha para ele e observa tudo atentamente antes de relatar ao seu Deus – um monstro semelhante aos silvanos ou homens das águas.’
Tchékhov ria até chorar enquanto contava isso.
— Eu disse: ‘Górki é uma pessoa boa’. E ele retrucou: ‘Não! Ele tem um nariz de pato, característico apenas dos infelizes ou maldosos…’
Ao recuperar o fôlego, Tchékhov reiterou:
— Sim, o velho está com ciúmes; surpreendente isso.”
Todos percebem agora: quando Górki fala sobre o ciúme do gênio literário, ele menciona que Tchékhov chorou – mas era de tanto rir! Isso contrasta totalmente com a afirmação de Conti sobre Tchékhov chorando friamente como médico ao relatar o caso. Há claramente má-fé na interpretação apresentada por Mario Sergio Conti.
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A diferença na percepção da grandeza literária entre nós é notável. Em minhas mais de dez leituras da obra de Górki – sempre repletas de prazer renovado – pude notar.
Dentre todas as análises que fiz sobre Tolstói para compreendê-lo melhor e buscar respostas para perguntas como “quem é esse louco? qual é a essência dessa percepção?”, nada foi tão concreto e profundo quanto as palavras escritas por Máximo Górki em “Três Russos”. Um chamado especial para escritores de todas as correntes literárias, leitores ávidos por conhecimento e apaixonados pela literatura: vocês não encontrarão nenhum outro livro tão precioso em análise viva e aguda quanto este. Desde Thomas Mann até André Maurois, passando pelas vanguardas russas e europeias, todos reconhecem o valor da obra “Três Russos”, onde os três russos referidos são Tolstói, Tchékhov e Andreiev. Vale entender essa razão. Cito com satisfação algumas passagens sobre Tolstói:
“Certa tarde, ao crepúsculo, ele lia uma versão da cena do Padre Sérgio em que uma mulher busca seduzir um eremita. Ao terminar sua leitura, levantou os olhos e disse claramente:
— O velho escreve muito bem! Muito bem!
A simplicidade admirável dele e sua sincera apreciação pela beleza me marcaram profundamente em um momento em que minha alegria foi indescritível; uma alegria difícil de colocar em palavras que também me trouxe certa tristeza ao tentar contê-la. Por um instante meu coração parou; depois tudo ao meu redor parecia renovado e cheio de frescor vital.”
A seguir está uma crítica a uma personagem criada por Górki encontrada no livro:
“Tolstói me convidou para sentar à sua frente e começou a falar sobre Varenka Olessova e outros assuntos diversos. Fiquei impressionado com sua voz poderosa enquanto falava brutalmente sobre questões relacionadas à natureza humana:
— Uma jovem saudável após os quinze anos deseja ser beijada; sua razão pode temer o desconhecido – isso chamamos castidade ou pudor – mas seu corpo já sabe que essa inevitabilidade existe.”
E também outra lição essencial sobre literatura deixada por Máximo Górki para todos nós leitores felizes de “Três Russos”:
“Em Moscou, perto da Torre Sukharev num beco qualquer vi no outono uma mulher embriagada jogada no chão próximo à calçada. Da entrada de uma casa escorria água suja pela nuca dela enquanto ela gemia sem conseguir se levantar.”
Tolstói tremia ao ver aquela cena horrenda:
— Sentemo-nos aqui… Uma mulher embriagada representa algo horrível! Eu queria ajudá-la a levantar-se; porém não consegui tomar coragem; era repulsiva demais para mim… Mas havia ali também um garoto loiro sentado à beira da calçada chorando desesperadamente: ‘Mãe… levante-se!’ E ela continuava caída naquele estado deplorável.
Tolstói olhava ao redor repetindo ansiosamente:
— Sim! É horrível! Você já viu muitas mulheres nessa condição? Muitas sim! Ah meu Deus! Não descreva isso!
— Por quê?
Tolstói olhou nos meus olhos sorrindo novamente:
— Por quê?
E continuou pensativo:
— Não sei… talvez tenha vergonha de escrever sobre coisas tão deprimentes… Mas tudo deve ser escrito!
Lágrimas brotaram em seus olhos enquanto ele enxugava as faces ainda molhadas pelos sentimentos.
— Estou chorando… Sou velho… Meu coração aperta quando lembro dessas cenas terríveis.
E empurrando-me levemente com o cotovelo acrescentou:
‘Quando você viver bastante tempo perceberá também essas verdades.’
No final das contas, eu e Mario Sergio Conti temos leituras completamente diferentes da mesma obra.
