O aumento das apostas online entre as mulheres brasileiras pode ser atribuído a contas em atraso e à necessidade de gerenciar um orçamento familiar reduzido. Um estudo revela que 56% delas se consideram endividadas, enquanto 64% notaram um aumento no custo de vida no último ano. Além disso, 52% afirmam ser as principais responsáveis pela administração das finanças domésticas. Entre as mulheres negras, essa taxa de endividamento sobe para 69%, e para as pardas, chega a 62%.
Nesse contexto, as apostas se tornam uma alternativa. A pesquisa intitulada “Mulheres & Bets”, realizada pelo Estúdio Clarice em colaboração com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, indica que mães apostam 1,6 vez mais do que aquelas sem filhos. No Brasil, 42% das mulheres já participaram ou ainda participam de apostas; outras 12% nunca jogaram, mas são impactadas pelas apostas feitas por parceiros ou familiares.
O levantamento foi realizado por meio de 20 grupos qualitativos com 60 participantes e uma pesquisa nacional com 2.008 pessoas em julho.
A aposta como parte do orçamento
No início das entrevistas, as apostas não são vistas como uma forma de enriquecimento. Elas estão ligadas a necessidades práticas: pagar contas, adquirir material escolar ou simplesmente ter um pouco mais de flexibilidade financeira.
As plataformas oferecem uma promessa sedutora para mulheres que já lidam com um orçamento insuficiente para cobrir todas as despesas. De acordo com os dados coletados, 68% das entrevistadas destinam sua renda principalmente para alimentação e mercado; 65% para contas como luz, água e internet.
Para muitas mulheres, apostar representa uma oportunidade de conseguir rapidamente o dinheiro necessário. O estudo descreve essa expectativa como uma “promessa de redenção”, onde o objetivo é quitar dívidas ou oferecer algo melhor para os filhos. O conceito de prosperidade encontrado nas entrevistas está mais ligado à possibilidade de viver sem a pressão constante das contas do que ao enriquecimento.
Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e uma das vozes do estudo, resumiu: “Elas apostam para pagar o bolo do aniversário, pedir um delivery ou comprar material escolar.”
A confiança como estratégia comercial
A divulgação das apostas acontece através de uma rede que combina publicidade, redes sociais e relacionamentos pessoais. Entre as apostadoras, 24% descobriram as bets por meio das redes sociais; 23%, por amizade; 18%, por influenciadores digitais; e 14%, por familiares.
O estudo traça uma cadeia que começa com grandes influenciadores e passa por perfis locais até chegar a amigos e familiares que compartilham links em troca de bônus.
A entrada nesse universo frequentemente se dá através de vínculos de confiança: seja pela amiga que mostrou um ganho significativo ou pelo familiar que enviou um link convidativo. As irmãs da igreja também compartilham links durante os cultos.
Além disso, essas relações pessoais não apenas ajudam na promoção das plataformas; elas também estão ligadas à remuneração daqueles que divulgam os links. O relatório menciona casos em que mulheres foram convidadas pelas próprias casas de apostas a promover cadastros em troca de comissões sobre as perdas dos novos usuários.
A publicidade cria a ilusão de que ganhar é algo comum. Influenciadores relatam mudanças significativas em suas vidas devido às apostas, enquanto conhecidos compartilham ganhos nas redes sociais e em grupos privados. Isso gera a pergunta: “se ele conseguiu, por que eu não posso?”
Após o primeiro contato com as apostas, a exposição aumenta: 79% das mulheres atualmente apostadoras afirmam que suas redes sociais passaram a mostrar mais conteúdos relacionados às apostas. Por outro lado, 72% acreditam que a publicidade incentiva comportamentos excessivos nas apostas.
Quando o retorno financeiro não ocorre
No entanto, essa promessa nem sempre se concretiza para todas as mulheres que decidem parar de apostar. Um total de 28% das ex-apostadoras afirma ter abandonado o jogo após perceberem que não estavam obtendo os resultados esperados; outros 24% mencionaram riscos financeiros e 9%, endividamento. Após deixarem as apostas, 28% relataram sentir-se mais tranquilas e 24%, aliviadas.
A pesquisa também revela diferenças na maneira como perdas são avaliadas quando envolvem homens ou mulheres.
Em um experimento conduzido na pesquisa, participantes analisaram pessoas que apostaram para complementar sua renda e acabaram perdendo dinheiro ao ponto de não conseguirem pagar o aluguel. A presença dos filhos reduzia a responsabilização atribuída aos homens, mas aumentava a cobrança sobre as mulheres. A maternidade elevava a percepção negativa sobre elas como provedores inadequados; no caso dos homens, ser pai funcionava como um atenuante.
Mulheres também estão saindo desse ciclo
Não são apenas mulheres adentrando no mundo das apostas; existe também uma parcela significativa que consegue interromper esse ciclo. Entre aquelas sem filhos, 24% já abandonaram as apostas; entre mães, esse percentual é menor. Os pesquisadores sugerem que para essas mães desistir do jogo pode significar abrir mão da tentativa — embora ilusória — de cumprir seu papel como provedoras dos filhos. Essa hipótese requer estudos adicionais para aprofundamento.
A disposição para limitar esse mercado é notável: 62% das mulheres apoiam a proibição das casas de apostas contra apenas 50% dos homens pesquisados. Adicionalmente, 41% defendem que essas plataformas continuem operando mas sem campanhas publicitárias.
A preocupação também se reflete nas famílias: entre aquelas mulheres afetadas pelo jogo próximo a elas mas que não apostam mais, 73% tentaram alertar seus entes queridos sobre os perigos envolvidos.
Esses dados posicionam as mulheres em um papel ativo que vai além do simples consumo ou vitimização pelas apostas: elas reconhecem os impactos do jogo dentro do lar e buscam maneiras de limitá-los enquanto defendem restrições ao funcionamento desse setor.
Demandas por medidas públicas
Diante desse panorama surgem propostas regulatórias relacionadas ao jogo online. A pesquisa aponta apoio popular à restrição da publicidade associada às apostas e à criação de mecanismos voltados ao auxílio daqueles que desejam parar com essa prática.
Dentre essas iniciativas já implementadas está o Sistema Centralizado de Autoexclusão, que permite bloquear CPF nas plataformas autorizadas para aqueles interessados em interromper suas atividades nas apostas. Entretanto, o levantamento revelou que 71% dos entrevistados desconheciam essa ferramenta durante a pesquisa.
Novas regras federais agora regulamentam também a publicidade associada às apostas online, exigindo advertências sobre os riscos envolvidos e impondo restrições sobre como influenciadores podem promovê-las — um aspecto identificado pelo estudo como crucial tanto para entrar quanto permanecer nesse ambiente.
A fiscalização estende-se ainda às plataformas operando fora da legalidade: segundo informações do Ministério da Fazenda, mais de 60 mil sites ilegais já foram bloqueados no Brasil.
A ação também busca impactar o fluxo financeiro associado ao jogo ilegal: conforme Carlos Renato Resende, subsecretário do Ministério da Fazenda responsável pela Monitoramento e Fiscalização, milhares de sites estão interligados a centenas de entidades jurídicas intermediárias e dezenas de instituições financeiras. O intuito é desmantelar toda estrutura financeira sustentadora dessas operações clandestinas.
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A atuação governamental dialoga diretamente com uma preocupação evidenciada pela pesquisa: aproximadamente 63% dos brasileiros acreditam que plataformas online podem ser utilizadas como meios para lavagem de dinheiro.
A centralidade da mulher nas políticas públicas
A pesquisa indica que parte significativa da solução emerge dentro das próprias famílias; no entanto, isso ressalta limites quando essa responsabilidade recai unicamente sobre as mulheres. Elas tentam alertar parceiros acerca dos riscos associados ao jogo e enfrentam diariamente as consequências financeiras e emocionais decorrentes dessas práticas.
Dessa forma, o estudo sugere políticas voltadas ao suporte dessa resposta coletiva sem transferir novamente às mulheres a responsabilidade individual pela contenção desse problema social. O relatório propõe “campanhas direcionadas a elas”, “canais de apoio isentos de julgamentos” e “caminhos estruturados colocando-as no centro” deste debate crucial.”
