Nos próximos dias, São Paulo receberá duas montagens teatrais que abordam figuras marcantes da política brasileira. Apesar de suas propostas distintas, ambas têm um objetivo em comum: revisitar trajetórias que ainda geram discussões sobre democracia, direitos humanos e justiça social. Com uma curta temporada, a peça “Olga”, da Companhia Ensaio Aberto, será apresentada gratuitamente no Teatro Paulo Eiró. Por sua vez, “Abdias do Nascimento”, escrita por Ivan Jaf e estrelada por Diego Ferreira, integra a programação do Teatro J. Safra.
Mais do que simples biografias encenadas, essas produções utilizam a força do teatro para conectar o público a personagens cujas ações transcenderam seu tempo e permanecem relevantes nos debates atuais acerca de memória, intolerância, racismo e participação cívica.
Retorno de Olga Benario aos palcos
A montagem da Companhia Ensaio Aberto traz à tona a história de Olga Benario Prestes, uma militante comunista alemã que se tornou um símbolo na luta contra o fascismo no século XX.
Olga foi companheira de Luís Carlos Prestes e foi entregue pelo governo de Getúlio Vargas ao regime nazista enquanto estava grávida. Ela foi assassinada em 1942 em uma câmara de gás no campo de extermínio de Bernburg. Sua narrativa se transformou em um símbolo da resistência política e da brutalidade dos regimes autoritários.
A encenação adota o estilo do teatro épico, característica da companhia dirigida por Luiz Fernando Lobo, unindo documentos históricos com uma linguagem contemporânea e uma reflexão crítica sobre o autoritarismo. As apresentações gratuitas visam democratizar o acesso a uma obra que já faz parte do repertório do grupo há muitos anos.
Abdias: arte como resistência contra o racismo
No Teatro J. Safra, a peça dedicada à vida de Abdias do Nascimento retrata um dos mais influentes intelectuais e ativistas do movimento negro no Brasil.
Escrita por Ivan Jaf e interpretada por Diego Ferreira, a montagem explora vários momentos significativos da vida de Abdias, que foi fundador do Teatro Experimental do Negro, além de ter atuado como deputado, senador, escritor e educador comprometido com os direitos da população negra.
Ao mesclar teatro documental com atuação dramática, o espetáculo evidencia como arte e ativismo caminharam em paralelo na trajetória de Abdias, cuja contribuição foi crucial para inserir o combate ao racismo estrutural na agenda política e cultural brasileira.
Personagens em diálogo com a atualidade
Embora cada produção aborde contextos históricos diferentes, ambas compartilham a preocupação em evidenciar como conquistas democráticas foram alcançadas graças à luta de indivíduos que enfrentaram perseguições políticas, discriminação e violência institucional.
Olga Benario simboliza a resistência contra o avanço do fascismo e dos regimes totalitários. Por outro lado, Abdias do Nascimento representa a luta contra o racismo e pela valorização da cultura afro-brasileira. Em ambos os casos, o palco se transforma em um espaço vital para preservar memórias e promover diálogos entre passado e presente.
Ao intensificar o interesse por personagens históricos no cenário teatral brasileiro contemporâneo, essas duas montagens reafirmam o papel das artes cênicas como instrumentos fundamentais para a reflexão pública. Em vez de transformar seus protagonistas em figuras monumentais, os espetáculos buscam revelar as escolhas pessoais, dilemas e a dimensão humana dessas personalidades que deixaram legados duradouros na história política, social e cultural do Brasil.
SERVIÇO:
A Companhia Ensaio Aberto apresenta “Olga” na capital paulista com entrada gratuita no Teatro Paulo Eiró entre 25 de julho e 2 de agosto. As apresentações ocorrerão às quartas-feiras até sábados às 20h e aos domingos às 19h. Os ingressos devem ser retirados antecipadamente. O Teatro Paulo Eiró está localizado na Avenida Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro. Esta produção já circulou pelo Rio de Janeiro, trazendo ao público paulistano a história dessa revolucionária alemã que se tornou um ícone da resistência antifascista no Brasil.
Por sua vez, entre os dias 7 e 9 de agosto, o Teatro J. Safra recebe “Abdias do Nascimento”, assinada por Ivan Jaf e Diego Ferreira sob direção de Johayne Hildefonso e Iléa Ferraz. Classificada como “Teatro de Memória e Resistência”, essa montagem terá apenas três apresentações dedicadas à vida e obra deste ativista multifacetado que fundou o Teatro Experimental do Negro.
