A recente participação de Javier Milei na convenção do PL, que ocorreu em São Paulo e onde manifestou seu apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, gerou uma forte onda de críticas na Argentina.
O presidente argentino passou a ser acusado de utilizar recursos do Estado em benefício de interesses partidários estrangeiros, resultando em uma denúncia por malversação de verbas públicas.
Os advogados José Magioncalda e Juan Martín Fazio protocolaram a ação, argumentando que a viagem do presidente para um evento político da oposição brasileira caracteriza desvio de finalidade dos recursos públicos.
De acordo com os autores da denúncia, o uso da aeronave presidencial, da comitiva oficial e da infraestrutura estatal para apoiar uma candidatura em outro país pode ser considerado como malversação e violação dos deveres de um servidor público.
Na petição apresentada, os advogados assinalam que a viagem foi um uso impróprio do aparato estatal para favorecer uma corrente política externa, o que teria causado danos às relações diplomáticas entre Argentina e Brasil.
No evento do Partido Liberal, realizado no último sábado (25), Milei insultou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamá-lo de “presidiário” e criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que negou seu pedido para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar.
Essas declarações resultaram na mais grave crise diplomática entre os dois países em muitos anos.
O governo brasileiro convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos. Simultaneamente, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado de volta a Brasília para consultas.
Além das repercussões diplomáticas imediatas, a Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral pedindo a investigação sobre uma possível interferência do presidente argentino nas eleições brasileiras.
A representação argumenta que a presença de Milei em um ato de campanha para Flávio Bolsonaro pode ser interpretada como uma intervenção estrangeira nas eleições nacionais.
Turnê da extrema direita
A visita ao Brasil é apenas o início de uma agenda internacional destinada a estreitar laços entre Milei e governos conservadores na América do Sul.
Nas próximas semanas, o presidente argentino participará da posse de Keiko Fujimori no Peru, se reunirá com o presidente equatoriano Daniel Noboa e viajará à Colômbia para prestigiar a posse de Abelardo de Espriella. Esses líderes estão associados ao recente crescimento da direita na região.
Essa série de viagens integra a estratégia de Milei para se estabelecer como a principal figura da extrema direita latino-americana, ampliando sua influência internacional e fortalecendo vínculos com governos alinhados à sua visão política.
A iniciativa acontece em meio às crescentes dificuldades enfrentadas pelo governo argentino.
Embora tenha havido uma desaceleração na inflação, a economia argentina encolheu pelo segundo mês consecutivo. O consumo continua baixo e as taxas de desemprego permanecem altas, gerando críticas ao programa econômico do governo.
Analisando o cenário atual, especialistas e integrantes da oposição observam que a intensa agenda internacional e os constantes conflitos com governos estrangeiros podem servir como forma de desviar a atenção das dificuldades internas enfrentadas pela administração.
A estratégia ganhou destaque quando Milei utilizou sua passagem pelo Brasil para reforçar seu discurso contra os governos progressistas da região.
Após a convenção do PL, ele declarou em entrevistas que supostas campanhas internacionais contra a Argentina teriam sido financiadas por governos esquerdistas, incluindo o do presidente Lula, além do Partido Democrata dos Estados Unidos e do governo mexicano. Contudo, especialistas consultados pelo The Guardian afirmam que não existem evidências públicas que sustentem tais alegações. Para esses analistas, as afirmações reforçam a narrativa de “guerra cultural” promovida por Milei e desviam o foco das questões internas enfrentadas por seu governo, como aumento do desemprego e denúncias de corrupção.
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