Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou sua jornada rumo à reeleição em 2026 com três vantagens significativas sobre seu principal concorrente, o senador Flávio Bolsonaro (PL). Contudo, o primeiro dia oficial da campanha trouxe um quarto e inesperado trunfo que já está impactando a corrida presidencial.
A primeira vantagem de Lula é sua posição como incumbente, ou seja, ele busca se reeleger. A literatura de ciência política aponta que candidatos que já ocupam cargos têm certas “cartas na manga”: são mais reconhecidos pelo público, contam com visibilidade na mídia, podem apresentar suas realizações, têm uma maior capacidade de influenciar a agenda política e possuem experiência administrativa acumulada.
A segunda vantagem é a liderança de Lula nas pesquisas eleitorais. Essa posição não só atrai apoio de aliados, mas também afasta setores do Centrão do bolsonarismo. O líder estabelece-se como referência para os demais candidatos; todos precisam se posicionar em relação a ele. Além disso, quem lidera provoca o chamado “efeito carro-chefe” (bandwagon effect): muitos eleitores tendem a apoiar quem aparenta ter mais chances de sucesso. Isso cria uma hierarquia competitiva desde o início da campanha, onde o líder não precisa justificar sua viabilidade.
<pOutra vantagem importante é que a coligação de Lula, denominada “O Brasil Pronto Pra Mais”, é atualmente a única aliança formal na disputa pela presidência, reunindo sete partidos (PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede). Por outro lado, o PL de Flávio Bolsonaro não firmou coligações com outras siglas. Esse cenário reflete diretamente no tempo de televisão disponível para cada candidato durante a propaganda eleitoral: Lula terá cerca de 5 minutos e 32 segundos em blocos de 12 minutos e 30 segundos, enquanto Flávio contará com aproximadamente 4 minutos e 20 segundos. Em termos de inserções publicitárias de 30 segundos, Lula terá 433 contra 340 de Flávio.
Além dessas três vantagens já mencionadas, o início da campanha neste domingo (16) revelou um quarto diferencial surpreendente: a capacidade de mobilização popular. Nos últimos anos, eventos organizados pela extrema direita frequentemente atraíram mais pessoas às ruas do que aqueles da esquerda. Mesmo quando os atos bolsonaristas apresentavam públicos inferiores ao esperado, não podiam ser ignorados. Com os comícios marcados por Flávio Bolsonaro e Lula para dar início às campanhas, as comparações tornaram-se inevitáveis.
A articulação entre partidos e movimentos apoiadores da reeleição de Lula transformou o lançamento da campanha no Estádio 1º de Maio em São Bernardo do Campo (SP) em uma verdadeira demonstração de força. Segundo informações da coordenação da campanha, cerca de 40 mil apoiadores compareceram ao evento – superando as expectativas iniciais que eram de 30 mil pessoas. Durante o pico do ato, muitas pessoas ainda estavam aglomeradas nos arredores do estádio.
Em contraste, o evento promovido pelo bolsonarismo em Copacabana (RJ) atraiu menos de 10 mil participantes. O Monitor do Debate Político da USP/Cebrap registrou que o ato “Flávio Bolsonaro: O Resgate do Brasil” alcançou um pico de apenas 8,9 mil pessoas às 11h30. Para efeito comparativo, em 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) estava concorrendo à reeleição e organizou um ato no mesmo local, o público alcançou impressionantes 64,6 mil pessoas.
Embora os efeitos eleitorais dos atos nas ruas possam ser voláteis, essa diferença ajudou a impulsionar a campanha de Lula e acendeu um sinal amarelo para o bolsonarismo. Conforme relatado por um jornal local, integrantes do PL consideraram que Flávio deixou uma impressão negativa ao apresentar um evento menos expressivo do que poderia ter sido. No dia seguinte (17), Flávio cancelou uma motociata programada para a manhã em Juiz de Fora (MG), alegando “mau tempo”, mas essa decisão gerou ruídos negativos na largada da sua campanha. Isso levanta dúvidas sobre sua capacidade em replicar as atividades bem-sucedidas realizadas por Jair Bolsonaro nas ruas.
Por outro lado, a campanha de Lula expressa satisfação com o sucesso do evento inaugural. A expectativa agora é garantir outra grande mobilização na próxima sexta-feira (21), quando ele estará em Belo Horizonte para apoiar a candidatura do ex-ministro Patrus Ananias (PT) ao governo mineiro. Nesse mesmo dia, Lula também participará das primeiras sabatinas eleitorais ao ser entrevistado pelo SBT. Depois desse início promissor, ele vive sua primeira semana de campanha com renovada confiança.
