No último sábado, a Quinta da Atalaia enfrentou um calor quase insuportável. Durante o período diurno, os termômetros registraram 37 graus, e a sensação térmica era ainda mais intensa devido à umidade. Os frequentadores da Festa buscavam desesperadamente sombra, bebidas geladas ou qualquer local que proporcionasse um breve descanso. Somente por volta das 20h o sol se pôs, permitindo que a temperatura começasse a cair. Antes das 21h30, o clima já estava mais ameno e a área em frente ao Palco 25 de Abril estava repleta de pessoas. Havia grupos sentados no chão sobre panos, muitos em pé e até carrinhos de bebês, todos ansiosos pelo show de Pedro Jóia, agendado para as 21h45.
A animação para o show de Ney Matogrosso começou muito antes do evento daquele dia. Desde que a programação comemorativa dos 50 anos foi divulgada, sua participação ganhou destaque em vários meios de comunicação portugueses, incluindo RTP, Diário de Notícias, Time Out Lisboa e Renascença. Ao olhar ao redor, ficava claro que muitos estavam ali especialmente por causa dele. Ney tem se apresentado em Portugal há mais de quarenta anos e construiu uma conexão profunda com o público local ao longo de sua carreira. Para muitos portugueses, ele é muito mais do que apenas um artista brasileiro ocasional; é uma figura familiar que retorna ao país para reencontrar uma audiência que evoluiu e trouxe novas gerações para seus shows.
Essa ligação com Portugal também inclui Pedro Jóia. A parceria entre eles começou no início dos anos 2000 e em 2003 Ney participou do álbum Jacarandá, do guitarrista português. Posteriormente, Pedro fez parte da banda do cantor por cerca de quatro anos, acompanhando-o em turnês e contribuindo nos álbuns Vagabundo (2004) e Canto em Qualquer Canto (2005). Em 2017, eles dividiram novamente o palco no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. Portanto, o encontro na Atalaia não era meramente casual; era mais um capítulo de uma amizade e colaboração artística consolidada ao longo de mais de vinte anos entre Brasil e Portugal.
Contudo, havia um aspecto importante a ser destacado: não se tratava de um show solo de Ney Matogrosso. O espetáculo era organizado por Pedro Jóia especialmente para celebrar os 50 anos da Festa do Avante!, com Ney como convidado especial. A apresentação foi marcada pela guitarra envolvente de Pedro, que uniu música, memória e solidariedade internacional. O cantor Manuel João Vieira deu voz a uma parte dedicada à luta do povo cubano e a performance abordou temas como a Palestina e homenagens a José Afonso. Acompanhando Pedro estavam José Salgueiro na bateria, Guilherme Salgueiro nos teclados, Norton Daiello no baixo, João Frade no acordeão e Luanda Cozzetti nos vocais.
Quando Ney subiu ao palco, tornou-se difícil desviar o olhar dele. Ele apresentou sete canções com uma voz aos 85 anos ainda esplêndida e inconfundível. Seu corpo atlético — sempre uma parte significativa de sua expressão artística — continuou ativo como nunca. Ney dançava e interpretava com uma energia vibrante que poderia facilmente enganar qualquer um quanto à sua idade avançada.
Essa imagem não é nova para aqueles que acompanham sua trajetória artística. Sua primeira grande aparição ao público ocorreu em 1973 com os Secos & Molhados. Em um Brasil sob regime militar na época, sua voz aguda combinada com o rosto pintado e movimentos livres desafiavam as normas sociais então vigentes. Com apenas dois álbuns lançados nessa formação clássica, músicas como Sangue Latino e Rosa de Hiroshima tornaram-se ícones da música brasileira.
Ney deixou o grupo em 1974 para iniciar sua carreira solo no ano seguinte. Desde então tem transitado por diversos estilos musicais e colaborações sem perder seu impacto cênico característico que sempre acompanhou suas atuações. Seu projeto Homem com H se destacou tanto que inspirou um filme dirigido por Esmir Filho sobre sua vida — protagonizado por Jesuíta Barbosa — disponível na Netflix desde 2025. Para quem conhece apenas fragmentos dessa história rica, o filme oferece uma visão mais abrangente do artista que estava diante do público na Atalaia meio século após sua estreia nos Secos & Molhados.
No entanto, talvez o aspecto mais tocante estivesse entre os presentes no público. Ao ouvirem os primeiros acordes das músicas interpretadas por Ney, muitos portugueses reconheciam as canções e tentavam acompanhar cada letra com seu próprio sotaque regional. Em certos momentos, a participação da plateia tornou-se parte integrante do espetáculo. O público apresentava uma diversidade etária notável: jovens chorando lado a lado com senhoras praticamente da mesma idade que Ney assistiam ao cantor performar suas músicas icônicas como Rosa de Hiroshima e Balada do Louco — onde meio século de diferença parecia desaparecer quando todos se uniam em canto.
Com Pro Dia Nascer Feliz — composição famosa de Cazuza e Frejat — aconteceu algo ainda mais intenso: a plateia explodiu em alegria! Muitos levantaram-se das cadeiras ou dos panos estendidos pelo chão formando um coro coletivo diante do Palco 25 de Abril. Aquela canção brasileira dos anos 1980 foi cantada como se fizesse parte da memória coletiva dos presentes ali reunidos; durante alguns minutos pouco importava quem conhecia Ney desde os tempos dos Secos & Molhados ou quem havia chegado à sua música mais tarde.
Foi nesse momento — muito além das explicações sobre seus quarenta anos relacionando-se com Portugal — que se percebeu claramente a sintonia entre Ney Matogrosso e seu público português local. Diversos veículos já haviam destacado sua participação no evento comemorativo dos 50 anos da Festa do Avante!. Após o concerto, a RTP descreveu a atuação de Ney como o momento mais aguardado da noite de sábado; estar diante daquele palco tornava claro por que isso era verdade sem necessidade alguma de palavras escritas.
Entretanto, isso não diminui a importância da contribuição de Pedro Jóia na produção desse evento musical significativo. Foi ele quem idealizou esse concerto onde Cuba, Palestina e referências brasileiras puderam coexistir artisticamente juntos num mesmo espaço cênico. Embora Ney tenha atraído naturalmente grande foco durante toda apresentação, ele estava inserido dentro da proposta maior da Festa do Avante!, onde há cinco décadas música, cultura política e solidariedade internacional são temas indissociáveis entre si; a amizade entre os dois artistas acrescentou ainda outra dimensão à performance celebrando as conexões duradouras entre Brasil e Portugal.
Após o término do concerto houve um momento onde parecia que ele ainda perduraria por algum tempo; enquanto as pessoas deixavam a Quinta da Atalaia buscando transporte para voltar pra casa Ney seguia presente nas conversas alheias aqui ou ali acompanhado por algum cantarolar solitário entre desconhecidos comentando sobre tudo aquilo que acabaram de vivenciar juntos naquela noite mágica — “maravilhoso” era uma palavra frequente nas discussões sobre o show enquanto os mais jovens usavam “fixe”, mas mantinham igual entusiasmo.
Pode-se dizer assim: o clímax desta celebração festiva chegou quando todos se reuniram ao redor para entoar os parabéns coletivamente! Nos festejos pelos 50 anos da Festa do Avante!, foi exatamente isso que Ney Matogrosso proporcionou ao público presente: jovens emocionados junto às senhoras contemporâneas dele – brasileiros ou portugueses – unidos numa mesma melodia diante do Palco 25 de Abril.
Ao ser convidado por Pedro Jóia para essa apresentação especial transformou sete canções numa verdadeira celebração coletiva capaz de transcender gerações assim como atravessar oceanos Atlânticos! O artista brasileiro cujo começo desafiador remonta aos Secos & Molhados agora aos impressionantes 85 anos mantém intacta sua voz potente junto à vitalidade contagiante fazendo vibrar todos aqueles presentes . Embora não tenha cantado Parabéns pra Você diretamente , fez algo muito semelhante – na festa comemorativa do Avante!, Ney Matogrosso brindou junto aos presentes seus cinquenta anos!
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