Na terça-feira (18), Glória Menezes faleceu aos 91 anos em sua residência no Rio de Janeiro. Conforme informações de sua família, a causa da morte foi natural. Com uma carreira que abrange mais de sessenta anos no teatro, cinema e televisão, a atriz deixa um legado significativo na dramaturgia brasileira.
Natural de Pelotas (RS), nascida em 19 de outubro de 1934 sob o nome Nilcedes Soares de Magalhães, Glória se transferiu para São Paulo ainda na infância. Ela se formou na Escola de Arte Dramática da USP e iniciou sua trajetória artística nos palcos teatrais. O nome artístico que adotou surgiu da necessidade de ser facilmente pronunciável em diversas línguas, enquanto “Menezes” remete às suas origens portuguesas.
Embora seu primeiro contato com o público tenha sido pelo teatro, foi na televisão que seu rosto se tornou conhecido por várias gerações.
<p Em 1963, ela fez parte do elenco de “2-5499 Ocupado”, a primeira telenovela diária do Brasil. Ao lado de Tarcísio Meira, com quem se casou em 1964, formou um dos casais mais icônicos da telinha por quase seis décadas, até o falecimento dele em 2021.
Do Cinema à Televisão
Antes de brilhar nas telinhas, Glória já havia conquistado reconhecimento no cinema. No filme “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte, ela interpretou Rosa, esposa de Zé do Burro. Essa produção ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e foi indicada ao Oscar como melhor filme estrangeiro. Sua atuação foi elogiada pela sutileza e pela carga emocional que transmitiu.
Na televisão, a artista participou de mais de quarenta novelas e contribuiu para uma nova abordagem interpretativa diante das câmeras, caracterizada pelo realismo psicológico. Dentre suas produções mais memoráveis estão “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “A Favorita”, “Senhora do Destino” e “Totalmente Demais”, que foi sua última novela em 2015.
Glória demonstrou grande versatilidade ao longo da carreira: transitou entre papéis românticos e cômicos até personagens complexos e vilãs. A personagem Laurinha Figueroa em “Rainha da Sucata” é uma das mais marcantes em sua filmografia. Em “Deus nos Acuda”, sua interpretação como Baby também foi amplamente reconhecida. Sua colaboração com o dramaturgo Silvio de Abreu foi especialmente relevante e abrangeu grandes sucessos como “Jogo da Vida”.
Um Contexto Político
A trajetória de Glória Menezes está entrelaçada com momentos significativos da política brasileira. Embora não tenha atuado diretamente como militante partidária, ela trabalhou em um período em que a televisão serviu como meio tanto para entretenimento quanto para formar narrativas sociais sob a sombra da censura.
Um exemplo notável é encontrado na novela “Cavalo de Aço” (1973), que abordava questões sobre reforma agrária e enfrentou diversas modificações devido à censura governamental. A narrativa acabou incorporando elementos policiais relacionados ao assassinato de um grande proprietário rural, enquanto Glória interpretava Miranda, uma fazendeira forte e decidida.
A situação reflete as nuances políticas envolvidas na dramaturgia que frequentemente precisava tratar assuntos delicados indiretamente. Durante a ditadura militar, temas como desigualdade social e concentração fundiária eram questões controladas pelo Estado.
A vida pessoal do casal Glória e Tarcísio também esteve marcada por momentos significativos de resistência cultural. Em 1978, Tarcísio leu um manifesto após uma apresentação teatral com Glória no papel principal; esse episódio foi documentado pelo Serviço Nacional de Informações como parte das manifestações contra a violência policial e a favor da anistia.
No contexto da redemocratização do país, Glória foi uma das artistas que apoiaram o manifesto pela Lei da Anistia registrado no Arquivo do Senado.
Anos depois, em 2021, ela e Tarcísio foram signatários de um manifesto promovendo o impeachment do então presidente Jair Bolsonaro.
Entretanto, esses episódios não definem Glória apenas como uma militante política; seu legado é o reflexo de uma artista que navegou por regimes autoritários e mudanças sociais sem deixar o espaço cultural.
A Artista Multifacetada
A longa carreira teatral de Glória Menezes inclui participações em peças como “As Feiticeiras de Salém”, “Júlio César”, “Ricardo III”, “Jornada de um Poema” e “Ensina-me a Viver”. Ela recebeu diversos prêmios importantes por suas performances dramáticas que exigiam grande capacidade emocional.
Sua trajetória está intimamente ligada à evolução profissional da dramaturgia brasileira; pertencente à geração que transformou a televisão em uma indústria cultural consolidada.
Recentemente, ela recebeu uma homenagem póstuma com uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Devido à sua condição de saúde, não pôde comparecer à cerimônia; seu filho Tarcísio Filho esteve presente em seu lugar. Essa homenagem ocorreu num momento simbólico que marcava cinco anos desde a morte do marido dela.
Um Legado Duradouro
A perda de Glória Menezes encerra um capítulo significativo na história das artes brasileiras. Sua carreira começou quando a televisão estava apenas começando a definir sua linguagem e culminou quando as novelas já eram consideradas parte essencial da cultura nacional.
No percurso entre os dois extremos dessa jornada estão personagens memoráveis como Rosa, Miranda, Laurinha e Baby—cada uma com histórias distintas: algumas amaram ou conspiraram; outras sofreram ou exerceram poder.
Talvez essa diversidade seja o melhor testemunho sobre sua importância: Glória Menezes não apenas fez parte da história televisiva brasileira; ela ajudou a moldar a maneira como o país se reconhece diante das câmeras.
