Brasil recorda os 21 anos da partida de Francisco Milani, o humorista com ideais comunistas

No dia 13 de agosto de 2005, na madrugada, o Hospital Barra d’Or foi palco do último ato de Francisco Milani, um dos ícones mais reconhecidos da televisão brasileira. Com 68 anos, ele enfrentava um câncer retal metastático há cinco anos, que o debilitava fisicamente, mas não conseguia abalar sua determinação. Sua morte representou a perda de uma figura que vivia entre as esferas da arte e da política, misturando risos com convicções firmes.

Para compreender o impacto do humorista e artista que conquistou o público brasileiro, é necessário revisitar uma época em que rir era um ato de resistência. Na década de 1960, Milani era um ator jovem vinculado ao Partido Comunista e participava do Centro Popular de Cultura da UNE, por convite de Oduvaldo Vianna Filho. Ele testemunhou a invasão e destruição do CPC durante o golpe militar de 1964. Com o endurecimento da ditadura, tornou-se alvo dos órgãos repressivos. Jô Soares mencionou em sua autobiografia que Milani escapou escondido no porta-malas de um veículo, contando com a ajuda do cenógrafo Cyro del Nero. Durante oito anos, ele trabalhou como caminhoneiro sob o pseudônimo de Romeu, enquanto se mantinha longe das autoridades, embora nunca esquecesse seu passado.

“Pergunta idiota, tolerância zero!”

<pO retorno à cena artística ocorreu nos anos 1970 e marcou o início de uma carreira multifacetada na dramaturgia nacional. Ele participou do filme Terra em Transe (1967), dirigido por Glauber Rocha, e atuou em Eles Não Usam Black-Tie (1981), sob a direção de Leon Hirszman. Além disso, fez a dublagem de grandes estrelas como Paul Newman e Robert Redford e foi narrador do programa Casseta & Planeta, Urgente! entre 1994 e 1997, também contribuindo com sua voz para o Fantástico e minisséries como O Quinto dos Infernos.

A comédia se revelou como seu verdadeiro espaço criativo — um reflexo para o público. Dirigiu programas icônicos como Viva o Gordo, com Jô Soares, e Chico Anysio Show. Criou personagens memoráveis como Pedro Pedreira, advogado cético na Escolinha do Professor Raimundo, cuja exigência por provas para cada fato histórico resultava na frase: “Então, não me venha com chorumelas!”. Outro personagem marcante foi Saraiva no Zorra Total, famoso pelo bordão que se tornou símbolo de uma era no humor na TV: “Pergunta idiota, tolerância zero!”.

“Ao observar alguém mal-humorado na rua, você acaba rindo porque esse comportamento é incomum e divertido”, declarou Milani em entrevista ao Diário do Grande ABC, em 2004. Essa afirmação expõe seu método: utilizar o mau humor como um reflexo social e transformar a rabugice em uma forma de dramatização cotidiana.

Da Câmara Municipal à chapa de Benedita

A trajetória de Milani como humorista nunca se desvinculou da militância política que sempre fez parte dele. Em 1992, foi eleito vereador no Rio de Janeiro pelo Partido Comunista Brasileiro e passou a integrar o PSB antes de se filiar ao PCdoB em 1995. Durante seu mandato, ele foi responsável pela criação da lei que estabeleceu a Riofilme, uma empresa municipal voltada ao fomento do cinema — evidenciando sua visão sobre cultura como uma questão pública essencial.

Em 2000, aceitou ser candidato a vice-prefeito na chapa encabeçada por Benedita da Silva (PT). Embora tenha perdido para Cesar Maia nas eleições, não desistiu da política. “Ser conhecido não garante minha eleição. Convencer as pessoas é outro desafio”, comentou ironicamente pouco antes da votação. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) descreveu-o como “uma pessoa generosa e coerente”, ressaltando sua integridade ao longo da vida.

A Internacional e o Timão

O velório durou duas horas — exatamente como desejara. Estavam presentes familiares e colegas dos programas Zorra Total e A Grande Família, onde interpretou Tio Juvenal em 2004 — um personagem rabugento conhecido como “tio mala”. Após a cremação do corpo, suas cinzas foram espalhadas ao mar. Antes do adeus definitivo, amigos realizaram uma despedida tipicamente brasileira: cantaram a Internacional Socialista, seguida pelo hino corinthiano — time amado por Milani desde sua infância no Belenzinho.

Cerca de uma semana após seu falecimento, foi ao ar um especial do Zorra Total, relembrando seus personagens icônicos. Milton Gonçalves prestou homenagem durante o programa e exibiu o último esquete em que Milani havia planejado ressuscitar Saraiva junto com o diretor Maurício Sherman — um projeto interrompido pela fragilidade de sua saúde.

O que resta do riso

Duas décadas se passaram desde então. O programa Zorra Total chegou ao fim; a Escolinha ganhou nova versão com Marco Ricca substituindo Pedro Pedreira; Saraiva retornou em 2010 interpretado por Leandro Hassum; e a Riofilme continua firme apesar das mudanças políticas ao longo dos anos. O Brasil evoluiu assim como seu humor e política.

No entanto, algo na trajetória de Francisco Milani permanece imutável: sua capacidade única de unir humor à cidadania e fazer rir sem dissociar entretenimento de engajamento social. Em tempos nos quais muitas vezes se exige escolha entre esses dois aspectos do artista, ele desafiou essa dicotomia ao fazer rir com a mesma intensidade com que militou politicamente.

“Pergunta idiota, tolerância zero.” Vinte anos depois dessa frase emblemática ainda ecoa não apenas como um bordão memorável mas também como um legado deixado por um artista que repudiava a ignorância e injustiça. Um brasileiro que nunca deixou suas convicções para trás mesmo quando estava oculto no porta-malas.

A publicação recorda os 21 anos desde a partida de Francisco Milani — um comunista que fez história através do humor.

By Aconteceu de Fato

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