“Sonhar é essencial, mas é fundamental acreditar em nossos sonhos,
observar atentamente a realidade ao nosso redor,
confrontar nossas percepções com as aspirações,
e realizar com rigor nossas fantasias.
Acredite nos sonhos.“
(Lenin)
Por que trago isso à tona?
Ao me aproximar de 45 anos de atividade política, tomei a decisão de reexaminar minhas crenças e reafirmar meu compromisso com o Socialismo, que considero uma fase essencial para alcançar uma sociedade sem classes e sem exploração, buscando um futuro onde não existam amos nem senhores.
Essa reflexão inicial remete-me ao ano de 2003, quando o cineasta alemão Wolfgang Becker lançou “Adeus, Lenin!”, um filme que se revela fundamental para entender as repercussões das transformações político-econômicas que ocorreram após o colapso da Guerra Fria na vida dos cidadãos da Alemanha Oriental.
No enredo, Alexander, o jovem protagonista, tenta proteger sua mãe Christiane, uma fervorosa defensora do socialismo, de um choque emocional que poderia ser devastador. Ao acordar após um coma de oito meses, Christiane ignora que o Muro de Berlim caiu e que tudo em seu entorno mudou drasticamente.
Com o intuito de preservar a memória do regime anterior, Alex recria no apartamento em que vive com a mãe a atmosfera socialista do passado, chegando a elaborar boletins informativos fictícios com a ajuda de um amigo cineasta para manter viva a ilusão da antiga ordem.
Becker navega por um terreno delicado ao criticar tanto o Socialismo “burocrático”, caracterizado por censura e racionamento, quanto as contradições resultantes da transição abrupta para o capitalismo, que trouxe desemprego e profundas transformações sociais e culturais.
A cena em que a estátua de Lenin é retirada pela janela diante de Christiane simboliza não apenas o término de uma era socialista, mas também revela a luta pela preservação dos valores socialistas na vida cotidiana daqueles que acreditaram e lutaram por esse projeto. Essa imagem evoca os desafios da transição e da memória coletiva.
Essa sequência me impactou intensamente; não pelo adeus em si. O impacto advém do reconhecimento daquela necessidade urgente de compreender o mundo antes que ele me absorvesse completamente. Esse impulso começou antes mesmo de qualquer teoria formalmente elaborada, lá no sertão do Rio Grande do Norte em 1976.
O sertão que me ensinou a questionar!
Crescendo como adolescente em Caicó, eu buscava incessantemente respostas para perguntas que mal sabia formular. Por que havia fome? Por que na escola alguns se vestiam impecavelmente enquanto outros estavam em roupas esfarrapadas como eu? Uma infinidade de “porquês” alimentava minha busca silenciosa por explicações.
A inquietação gerada por essas contradições me levava a experimentações que desafiavam a ordem estabelecida. Um amigo com preocupações semelhantes me convidou para ouvir Peter Frampton – um roqueiro com cabelos longos como os meus na época – interpretando “Show me the way”, cujos versos traziam questionamentos como: “Em quem posso acreditar? Estou ajoelhado no chão/Tem que haver uma força/Para quem eu ligo?”
Ao ouvir aquele solo envolvente com talk box (onde a guitarra parece quase falar), percebi pela primeira vez que minha inquietação não era apenas uma questão pessoal. Ela refletia um mundo vasto e confuso repleto de injustiças, clamando por ação e transformação profunda.
Ao chegar em Natal em 1980 para estudar Estatística na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), comecei a vivenciar não apenas as belezas do litoral natalense, mas também novas ideias surgidas de debates acalorados nos corredores da universidade durante assembleias estudantis e reuniões quase clandestinas. Estávamos nos últimos anos da ditadura militar no Brasil.
Lembro-me claramente de uma assembleia estudantil em 1981 quando corríamos risco real de repressão. Alguém passou um bilhete pedindo discrição sobre um nome mencionado nas discussões. Naquele instante compreendi que política não era mera abstração: era risco, escolha e responsabilidade pelo outro. Foi nesse contexto que o Partido deixou de ser apenas uma ideia abstrata para se tornar uma prática concreta.
Nesse ambiente efervescente ingressei no Partido Comunista do Brasil – PCdoB, onde continuo minha militância até hoje.
Por meio das análises concretas promovidas pelo PCdoB, fui solidificando convicções cada vez mais robustas: a luta pela vida e pelo progresso da humanidade demanda objetivamente a construção de uma nova alternativa socioeconômica e política – o Socialismo.
A experiência acumulada ao longo dessas quatro décadas e meia não me tornou nostálgico; pelo contrário, tornou-me mais exigente. O socialismo pelo qual luto não é aquele congelado na imagem da estátua de Lenin sendo retirada pela janela em 1989. Trata-se daquele que surge das contradições atuais: evidenciado na crise do neoliberalismo, na ascensão do Sul Global e nas alternativas criadas pelos povos fora dos moldes da hegemonia ocidental. Lenin sonhou fundamentado na realidade do seu tempo; precisamos sonhar com base nas condições contemporâneas.
Sonhos renovados pela China
A militância me ensinou que nenhuma ideia perdura sem confrontar as realidades concretas do seu tempo; assim sendo, a China se tornou meu principal laboratório histórico contemporâneo nessa reflexão: seria viável unir desenvolvimento nacional, planejamento estratégico de longo prazo, soberania política e melhoria das condições de vida para uma população tão vasta?
Poderia listar diversos indicadores impressionantes: atualmente, a China é a maior economia global em termos de paridade do poder aquisitivo (PPC); lidera mundialmente em patentes relacionadas à inteligência artificial; sua infraestrutura ferroviária ultrapassa os 50 mil quilômetros; além disso, até 2025 espera-se que mais de 16 milhões de veículos elétricos sejam produzidos anualmente no país – mantendo assim sua posição dominante há 11 anos consecutivos.
Os avanços são extraordinários em áreas como energias renováveis e metas climáticas. Em qualquer setor observamos progressos significativos oriundos da China.
Sob a liderança de Xi Jinping, o país apresentou ao mundo um conjunto estratégico coeso voltado à reestruturação da ordem internacional em transformação. As Iniciativas Globais para Desenvolvimento (GDI), Segurança (GSI), Civilização (GCI) e Governança Global (GGI) constituem um verdadeiro pacto pela vida com impactos diretos sobre nosso cotidiano.
As três primeiras iniciativas estabelecem as bases materiais priorizando a Agenda 2030 – promovendo uma nova arquitetura pacífica através da resolução dos conflitos ao fomentar diálogos respeitosos entre diferentes formas de modernização adotadas por cada nação. A GGI assegura garantias constitucionais para defender um verdadeiro multilateralismo baseado na igualdade soberana visando tornar a governança planetária mais justa e equitativa.
No entanto, é este dado específico que expressa melhor o caráter socialista: entre final de 2012 e final de 2020, aproximadamente dez milhões de pessoas foram retiradas da pobreza todos os anos na China – algo equivalente à retirada diária de uma pessoa da miséria a cada três segundos. Esse feito não foi fruto das mãos invisíveis do mercado; resultou sim do planejamento consciente realizado pelo Estado através da mobilização ativa dos quadros partidários nas áreas mais necessitadas. É precisamente isso que Lenin chamaria de alinhar sonho com realidade – e triunfar sobre ela.
O jovem caicoense ouvindo Peter Frampton pedindo orientação nunca imaginou que décadas depois esse caminho estaria sendo construído com concreto, aço e fibra ótica por cerca de um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas daquele lado do globo. A China pode não resolver todas as questões ou eliminar todas as sombras existentes; contudo demonstra inequivocamente através dos dados disponíveis que o socialismo não é apenas lembrança histórica – é também projeto viável.
A estátua imutável
A imagem gigantesca da estátua de Lenin sendo removida pela janela sob os olhares atentos chama Christiane para aceitar essa nova realidade dura para quem dedicou sua vida à causa socialista.
Senti essa mesma angústia compartilhada por muitos militantes da minha geração: aperto no peito; incertezas pairando no ar; perguntas sem respostas imediatas surgindo.
A estátua passando pela janela num apartamento berlinense em 1990 representa não o fim do socialismo per se; mas sim o ocaso daquela experiência inicial específica. E experiências são ajustáveis conforme os tempos demandam mudanças. As forças propulsoras dessas experiências também evoluem conforme necessário.
O colapso ocorrido em 1989 representou apenas uma configuração particular dentro da história europeia do socialismo. Transformar tal derrota numa prova contra toda forma futura possível desse modelo é reduzir um acontecimento histórico complexo à categoria dogmática.
Quatro décadas depois somos instados pela história a seguir outro caminho: analisar criticamente aquelas derrotas buscando entender seus erros e contradições afim extrair ensinamentos úteis às novas experiências frente aos desafios impostos pelo século XXI.
Ao acompanhar notícias sobre trens-bala cruzando as extensões interiores chinesas ou saber sobre os mais recentes dados indicando como mais 850 milhões saíram das garras da pobreza sob direção comunista enquanto observo movimentos firmes rumo à construção dessa nova ordem multipolar capaz desafiar hegemonicamente aquilo imposto como destino irrevogável vejo novamente aquela estátua erguida; desta vez manifestada nas práticas reais cotidianas.
Após quase meio século engajado reconheço agora plenamente como ainda estamos juntos nesta luta coletiva visando criar um mundo ainda inexistente mas absolutamente factível – essencial!
Sigo acreditando nos sonhos!
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