Há 120 anos, no dia 30 de julho de 1906, nasceu Mário Quintana em Alegrete, uma cidade do Rio Grande do Sul. O poeta faleceu em Porto Alegre em 5 de maio de 1994, aos 87 anos. Durante sua vida, ele produziu uma das mais notáveis obras da literatura brasileira, criando uma poesia que, embora pareça simples à primeira vista, aborda questões universais como o amor, a solidão, a infância, a passagem do tempo e da vida.
Reconhecido como o “poeta das coisas simples”, Quintana tinha o talento de extrair grandeza dos pequenos detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Elementos do cotidiano — como o silêncio, a rua ou um passarinho — tornavam-se matéria-prima para sua arte. Sua linguagem acessível se entrelaçava com uma construção literária sofisticada, repleta de lirismo e ironia, fazendo com que seus versos fossem vistos como uma filosofia em miniatura.
“Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não querê-las.”
Essa citação é um exemplo claro de sua habilidade em abordar a esperança com um toque irônico.
A obra literária de Quintana teve início em 1940 com A Rua dos Cataventos. Posteriormente, ele lançou outros livros significativos como Canções, Sapato Florido, Espelho Mágico, Caderno H e Apontamentos de História Sobrenatural. A publicação de sua Antologia Poética, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos em 1966, foi um marco que consolidou sua fama em nível nacional. Em 1980, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras por toda a sua obra e no ano seguinte conquistou o Jabuti na categoria Personalidade Literária.
A grandeza de quem nunca precisou parecer grandioso
Além de poeta, Quintana também se destacou como tradutor. Ele adaptou mais de 130 obras da literatura mundial para o português, traduzindo autores renomados como Marcel Proust, Virginia Woolf e Giovanni Papini. Embora essa faceta seja menos reconhecida do que sua poesia, ela evidencia a profundidade de seu conhecimento e sua capacidade de transitar entre diversas tradições literárias.
Sua poesia convida à apreciação do momento presente:
“Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…”
Para Quintana, o cotidiano não é sinônimo de banalidade; é no dia a dia que a vida realmente acontece.
Curiosamente, esse ícone da cultura brasileira viveu uma existência materialmente simples. Nunca se casou nem teve filhos e fez dos hotéis seu lar. Entre 1968 e 1980, residiu no Hotel Majestic em Porto Alegre — um prédio que mais tarde se tornaria a Casa de Cultura Mario Quintana. Este edifício foi tombado em 1982 e adquirido pelo governo do estado em 1983, transformando-se em um importante centro cultural.
Falcão e uma ajuda que virou parte da memória
Nesse período emerge uma das histórias mais conhecidas — embora distorcidas — sobre a vida do poeta. Durante anos circulou um relato segundo o qual Quintana teria sido despejado do Majestic e encontrado na rua pelo jogador Paulo Roberto Falcão, que o levou para o Hotel Royal.
No entanto, essa narrativa dramática não reflete a realidade. Amigos do poeta esclareceram que ele não foi simplesmente colocado na rua nem vivia na miséria descrita na versão popular. Após deixar o Majestic, passou pelo Hotel Presidente e em 1983 recebeu um convite de Falcão para morar gratuitamente no Hotel Royal, então propriedade do ex-jogador.
A lenda pode ter exageros mas não diminui a generosidade do gesto. A história se torna ainda mais fascinante ao mostrar como um ídolo do futebol reconheceu a grandeza das palavras de Quintana. O poeta encontrou abrigo durante um período difícil graças à amizade com Falcão. Depois disso, ele continuou morando no Porto Alegre Residence até os últimos anos de sua vida.
Um legado maior que os próprios versos
A presença duradoura de Quintana na cultura brasileira vai além do reconhecimento acadêmico. Sua força reside na habilidade de tocar leitores de diferentes gerações sem exigir conhecimento prévio ou especializado. Ele combina profundidade com acessibilidade: aborda grandes temas sem transformar a poesia em algo pomposo.
Por isso mesmo seu legado é tão significativo. Seus poemas estão presentes em livros escolares e jornais além das novas plataformas digitais. Porto Alegre tornou-se indissociável da memória do poeta; a cidade que ele explorou durante décadas foi incorporada à sua identidade artística.
No antigo Majestic — hoje Casa de Cultura Mario Quintana — essa memória encontrou um espaço fixo. É um paradoxo notável: aquele homem que viveu temporariamente em quartos acabou deixando uma casa permanente para as artes brasileiras.
Aos 120 anos, Mário Quintana nos ensina que poesia não precisa ser estrondosa para permanecer viva; ela pode sussurrar as verdades do cotidiano e encontrar eternidade nas pequenas coisas. Essa talvez seja sua maior herança: evidenciar que grandes obras podem surgir da simplicidade das palavras cotidianas e daqueles instantes fugazes onde tudo parece finalmente fazer sentido.
“Eles passarão…
Eu passarinho!”
Esse verso se destaca pela engenhosidade ao brincar com as palavras “passarão” e “passarinho”. O poema “Poeminha do Contra” encapsula perfeitamente a essência literária de Quintana: diante das adversidades da vida, optamos pela leveza e pela liberdade enquanto seguimos adiante.
