Conflito entre EUA e Irã intensifica tensões no Mar Vermelho

A agressão imperialista dos Estados Unidos ao Irã pode estar desencadeando uma nova fase de conflitos no Oriente Médio.

No dia 20 de novembro, os houthis, um grupo iemenita, anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, após meses de tensões entre Washington e Teerã e disputas pelo controle do Estreito de Ormuz. Essa ação aumenta a probabilidade de o conflito se expandir para um dos principais corredores marítimos globais.

Os houthis, que recebem apoio do Irã, justificaram essa decisão como uma resposta ao cerco econômico imposto ao Iêmen desde 2015 e aos recentes ataques que afetaram Sanaá.

Esse anúncio acontece em um contexto de escalada nas hostilidades entre os EUA e o Irã, com bombardeios americanos atingindo cidades e instalações iranianas, enquanto Teerã revida com ataques a bases e ativos militares norte-americanos no Bahrein, Kuwait e Jordânia.

Conforme os houthis afirmam, o bloqueio entrou em vigor imediatamente e se alinha à lógica de “olho por olho”, como reação ao cerco que enfrenta o Iêmen e aos ataques recentes contra o Aeroporto Internacional de Sanaá.

A organização declarou que embarcações sauditas com destino aos portos do Mar Vermelho serão tratadas como alvos militares.

A escalada entre os houthis e a Arábia Saudita começou após um ataque ao Aeroporto Internacional de Sanaá em 13 de julho. A ofensiva teve como objetivo impedir a aterrissagem de uma aeronave iraniana que trazia uma delegação houthi após o funeral do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

O incidente foi notável porque a Arábia Saudita enviou uma delegação de alto nível para a cerimônia, indicando que, apesar da rivalidade histórica entre Riad e Teerã, os dois países estavam avançando em um processo de reaproximação diplomática desde a reinício das relações em 2023.

Embora o governo reconhecido internacionalmente do Iêmen tenha reivindicado a operação, analistas sugerem que ela contou com suporte direto da Arábia Saudita.

Em resposta à ofensiva saudita, os houthis dispararam mísseis contra o Aeroporto Internacional de Abha, localizado no sul da Arábia Saudita. Eles também ameaçaram companhias aéreas que utilizassem o espaço aéreo saudita e agora implementaram um bloqueio naval contra embarcações do reino no Mar Vermelho.

Iêmen: Um país fragmentado pela guerra

O Iêmen é uma nação situada no sul da Península Arábica, assolada por uma guerra que já dura mais de dez anos.

Os houthis, conhecidos como Ansar Allah, controlam Sanaá e grande parte das regiões norte e oeste do país onde reside a maior parte da população. O grupo tomou a capital em 2014 e enfrentou uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita no ano seguinte, com apoio dos Estados Unidos.

Do outro lado estão as forças do Conselho de Liderança Presidencial, responsável pelo governo iemenita reconhecido pelas Nações Unidas e por várias nações ocidentais. Este conselho foi estabelecido em 2022 e tem sua base principal em Áden, no sul do país. Ele reúne diferentes grupos opositores aos houthis e depende fortemente do respaldo político, financeiro e militar da Arábia Saudita. No entanto, essa coalizão é marcada por desentendimentos internos por conta do controle sobre recursos e territórios.

Dentre essas facções está o Conselho de Transição do Sul, um movimento separatista apoiado pelos Emirados Árabes Unidos que defende a criação de um Estado independente no território do antigo Iémen do Sul. Embora faça parte do Conselho de Liderança Presidencial, esse grupo possui suas próprias forças armadas e já colidiu diversas vezes com aliados sustentados pela Arábia Saudita, revelando as rivalidades entre Riad e Abu Dhabi dentro da oposição aos houthis.

No entanto, essa terceira força saiu debilitada após uma ofensiva realizada no final de 2025.

Nesse cenário fragmentado está situado o Estreito de Bab el-Mandeb, uma passagem estreita com apenas 29 quilômetros entre o Iêmen e o Chifre da África. Essa rota conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e representa a via marítima mais direta entre o Oceano Índico, a Ásia e a Europa.

A importância dessa passagem aumentou significativamente devido à diminuição do tráfego pelo Estreito de Ormuz. A Arábia Saudita começou a enviar quantidades maiores de petróleo através de oleodutos até o porto de Yanbu no Mar Vermelho, fazendo com que Bab el-Mandeb se tornasse uma saída crucial para suas exportações.

Dados recentes sobre transporte marítimo indicam mudanças nas rotas comerciais devido às ameaças dos houthis; os custos com seguros para embarcações cruzando o Mar Vermelho já aumentaram. Assim sendo, mesmo sem fechar oficialmente o estreito, os houthis têm meios para pressionar Riad economicamente e projetar as tensões além das fronteiras iemenitas.

Houthis reivindicam ação como forma de romper cerco econômico

Os houthis alegam que seu bloqueio naval é uma resposta ao cerco econômico imposto ao Iêmen desde 2015 por meio da intervenção militar liderada pela Arábia Saudita.

Em entrevista à Al Masirah, Abdullah Bin Amer, vice-diretor das Forças Armadas iemenitas afirmou que essa medida representa uma “mudança radical” na dinâmica da guerra. Segundo ele, o objetivo é pressionar Riad a suspender as restrições impostas aos aeroportos e portos iemenitas assim como à economia nacional.

Bin Amer destacou que “o foco principal é acabar com o sofrimento humanitário enfrentado pelo povo iemenita”. Ele ressaltou ainda que as restrições sauditas afetam toda a população local – comerciantes e instituições públicas – levando os líderes houthi a transitar “da paciência prolongada para ações concretas em busca dos seus direitos legítimos”, após anos sem progresso nas negociações.

O comandante acusou também a Arábia Saudita de não cumprir acordos firmados em abril de 2022 relacionados à operação dos aeroportos e portos locais, pagamentos salariais e entrada essencial de mercadorias no país. Ele afirmou que o ataque ao Aeroporto Internacional de Sanaá foi decisivo para romper esse processo diplomático e motivou a decisão pelo bloqueio marítimo.

Ainda segundo os houthis, essa medida não visa fechar completamente Bab el-Mandeb ou interromper toda navegação internacional. “Não estamos fechando Bab el-Mandeb; estamos impondo um bloqueio ao inimigo saudita”, declarou Bin Amer.

Ele acrescentou que as Forças Armadas iemenitas estão preparadas para implementar essa estratégia devido à experiência adquirida durante confrontos anteriores no Mar Vermelho contra navios militares dos EUA, Reino Unido e Israel.


A experiência adquirida modificou as “regras da guerra naval” mostrando que o Iêmen está apto para sustentar uma campanha prolongada contra interesses sauditas na região.

A importância crescente do Bab el-Mandeb frente ao fechamento em Ormuz

A declaração dos houthis ocorre num momento crucial onde Bab el-Mandeb se tornou uma das rotas marítimas mais estratégicas globalmente.


Diante do fechamento parcial do Estreito de Ormuz devido à guerra entre EUA e Irã, esta passagem sulina passou a receber parte significativa do fluxo petrolífero anteriormente direcionado para as rotas rumo à Ásia ou Europa.


A Arábia Saudita é uma das principais beneficiárias dessa alteração; nas últimas semanas tem intensificado seu uso do oleoduto Petroline até Yanbu no Mar Vermelho.


A partir deste porto os petroleiros seguem através do Bab el-Mandeb rumo ao Canal de Suez ou ao Oceano Índico.


Dados fornecidos pela Kpler indicam que os embarques provenientes desse porto chegaram a aproximadamente 4 milhões de barris diários – mais que quadruplicando comparado ao mesmo período anterior.


Esse desvio tornou rapidamente mais relevante essa rota; segundo Kpler cerca de 7.4 milhões barris foram transportados através do Bab el-Mandeb apenas em junho passado – representando cerca de 7% da produção mundial.


O estreito passou então a funcionar como uma válvula importante para aliviar parte das consequências causadas pelas limitações impostas em Ormuz.


Caso os houthis consigam dificultar significativamente a navegação nessa área geográfica globalmente vital,a comunidade internacional enfrentará desafios simultâneos nas duas principais rotas petrolíferas do Oriente Médio.


Ainda segundo especialistas,um bloqueio prolongado pode aumentar consideravelmente custos relacionados ao seguro marítimo, obrigar navios contornarem todo continente africano aumentando assim pressões nos preços internacionais tanto do petróleo quanto das tarifas marítimas.

By Aconteceu de Fato

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