Em resposta à crescente ofensiva da extrema direita que busca internacionalizar ataques ao sistema eleitoral do Brasil, a ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia, apresentou nesta segunda-feira (27) uma defesa firme da democracia e da soberania nacional. Sua declaração surge após novas alegações infundadas sobre as urnas eletrônicas feitas por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), além de informações sobre a intenção do governo Donald Trump de enviar representantes ao Brasil para questionar o processo eleitoral e a presença de aliados estrangeiros da extrema direita em eventos políticos no país.
“Devemos ser nós a expressar o que desejamos para o Brasil, o que queremos”, enfatizou a ministra, alertando sobre qualquer tentativa de interferência ou enfraquecimento da democracia.
Em um contexto marcado pela reiteração das falsas acusações contra as urnas eletrônicas por Flávio Bolsonaro e pela presença do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL, Cármen Lúcia sublinhou que apenas os brasileiros possuem legitimidade para moldar o futuro do país e fez um apelo contra ações que possam comprometer a democracia.
Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Niterói (RJ), a ex-presidente do TSE defendeu a necessidade de robustecer as instituições democráticas e ressaltou que a vigilância em relação à democracia é constante.
“É essencial criarmos espaços como este (…) para avançarmos e fortalecermos a democracia no Brasil e em todo o mundo, evitando que haja tentativas de interferência ou fragilização da nossa democracia”, declarou.
A ministra reiterou que somente o povo brasileiro tem o poder de decidir os destinos do país: “Devemos expressar o que queremos para nós no Brasil.”
Embora não tenha mencionado diretamente figuras como Trump ou Milei, sua fala ocorreu em um momento de crescente tensão em torno das eleições brasileiras e foi vista como uma reafirmação da autonomia das instituições e da soberania nacional frente às pressões recentes.
Internacionalização dos ataques
Os eventos recentes ampliaram as discussões sobre tentativas de projetar as narrativas da extrema direita no cenário internacional, visando desacreditar a Justiça Eleitoral.
No dia 21 de setembro, Flávio Bolsonaro voltou a criticar as urnas eletrônicas durante um encontro com diplomatas de aproximadamente 40 países. Sem apresentar provas concretas, ele repetiu acusações já refutadas pelo TSE, vinculando o sistema brasileiro à empresa venezuelana Smartmatic e sugerindo o envio massivo de observadores internacionais para monitorar as eleições marcadas para outubro.
Essa estratégia é semelhante à adotada por Jair Bolsonaro nas eleições de 2022: deslegitimar as instituições eleitorais brasileiras perante a comunidade internacional e lançar dúvidas sobre um sistema cuja segurança, transparência e auditabilidade têm sido reconhecidas tanto pela Justiça Eleitoral quanto por missões internacionais de observação.
Um novo desdobramento ocorreu no dia 24, quando o jornal The Washington Post revelou que o governo Trump estava planejando enviar dois membros do Departamento de Estado ao Brasil para questionar as eleições. Segundo informações divulgadas, esses representantes pretendiam se encontrar com opositores das urnas eletrônicas semanas antes do primeiro turno das eleições.
A resposta do governo brasileiro foi rápida. O Itamaraty negou os vistos aos dois funcionários norte-americanos após concluir que essa missão poderia ser vista como uma tentativa de ingerência no processo eleitoral brasileiro, reafirmando que a realização das eleições é uma prerrogativa exclusiva das instituições nacionais.
No dia 25, durante a convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à presidência, esta estratégia de internacionalização foi reforçada. O evento contou com a presença do presidente argentino Javier Milei, que criticou Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes. Mensagens gravadas do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu também foram exibidas, assim como vídeos familiares dos Bolsonaros.
Esses acontecimentos não são meros episódios isolados; eles revelam uma articulação política mais ampla visando garantir apoio internacional aos ataques contra o sistema eleitoral brasileiro.
Em defesa da soberania nacional
<pFoi nesse cenário tumultuado que Cármen Lúcia reiterou sua defesa pública pela democracia brasileira e pelo sistema eletrônico de votação. A ex-presidente do TSE afirmou que a verdadeira essência da democracia reside na participação cidadã e destacou que os votos são expressos por meio de urnas eletrônicas “seguras, transparentes e auditáveis”. Ao comparar a democracia com regimes autoritários onde o poder é concentrado nas mãos de poucos, ela enfatizou que apenas ao povo cabe decidir os rumos do Estado através do voto.
Além disso, sua declaração também reforça a posição institucional da Justiça Eleitoral diante das campanhas contínuas de desinformação sobre o sistema. Após os comentários feitos por Flávio Bolsonaro, o TSE reiterou que a Smartmatic nunca fabricou ou programou as urnas eletrônicas utilizadas no país e ressaltou que toda a arquitetura tecnológica é desenvolvida e supervisionada exclusivamente pelo Poder Judiciário.
Cármen Lúcia reafirmou ainda que a legitimidade das eleições brasileiras provém da Constituição, da participação popular e das instituições democráticas, não sendo influenciada por avaliações externas ou pressões internacionais.
Democracia como construção permanente
No decorrer de sua palestra na SBPC, Cármen Lúcia recordou também a importância da comunidade científica durante o período da ditadura militar. A ministra mencionou como instituições como a SBPC se tornaram espaços cruciais para resistência e defesa das liberdades públicas quando o Brasil enfrentava censura e repressão.
A menção ao período autoritário fortaleceu ainda mais o sentido político central de seu discurso. Em tempos em que a democracia brasileira enfrenta campanhas desinformativas e tentativas de deslegitimar seu processo eleitoral novamente, Cármen Lúcia reafirmou os pilares inegociáveis do Estado Democrático: soberania nacional, voto popular e autonomia institucional.
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