O governo brasileiro manifestou uma reação contundente ao reprovar a narrativa dos Estados Unidos que sustenta a imposição de novas tarifas. Em um comunicado oficial emitido pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty condenou a politização do assunto, afirmando que “diante da falta de base legal interna para justificar sua política comercial protecionista, o USTR decidiu manipular um tema sensível aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores globalmente, acusando 59 países e a União Europeia de práticas desleais”.
Como contrapartida ao protecionismo unilateral, o Brasil está considerando acionar o mecanismo de resolução de disputas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Além disso, o governo está avaliando o uso da Lei de Reciprocidade Comercial, aprovada em 2025, que permite a aplicação de contramedidas proporcionais sobre tarifas, investimentos e direitos de propriedade intelectual contra países que impõem barreiras injustificadas ao comércio brasileiro.
A cobrança adicional foi anunciada nesta quarta-feira (23) e se refere a um acréscimo de 12,5% sobre a maioria das exportações brasileiras. Essa decisão, formalizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), foi justificada com base na alegação de que o Brasil não possui e não implementa uma proibição legal explícita para impedir a importação de produtos fabricados com trabalho forçado proveniente de outras economias.
A nova tarifa se torna ainda mais preocupante por se somar a barreiras já existentes. Com uma taxa anterior de 25%, resultante de pressões políticas relacionadas ao clã Bolsonaro e divergências sobre questões como comércio digital, propriedade intelectual, etanol e desmatamento, a nova sobretaxa eleva a carga tributária total para impressionantes 37,5% em setores chave da indústria nacional, como calçados, máquinas, equipamentos, confecções e produtos químicos não farmacêuticos. O novo imposto terá validade a partir do primeiro minuto desta sexta-feira (24).
A taxação imposta ao Brasil faz parte das investigações sob a Seção 301 do Trade Act de 1974, iniciadas em março de 2026 contra 60 países. Na prática, a administração do ex-presidente Donald Trump utiliza esse mecanismo como uma forma de proteção comercial para substituir tarifas multilaterais que foram rejeitadas pela Suprema Corte americana e que estavam fundamentadas no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA).
O próprio relatório do USTR reconhece as contradições da medida ao afirmar que o Brasil cumpre compromissos estabelecidos em acordos internacionais de investimento e livre comércio. Entretanto, em documento oficial publicado pelo órgão americano, é afirmado que tais acordos “não proíbem legalmente a importação de produtos produzidos total ou parcialmente com trabalho forçado em outra economia para venda no mercado interno”, exigindo que os parceiros internacionais adotem um modelo punitivo semelhante ao da legislação americana.
Especialistas nos Estados Unidos levantam questionamentos sobre a validade e eficácia das sobretaxas. Ed Gresser, ex-assistente do USTR e especialista em comércio no Progressive Policy Institute, avaliou as determinações da Seção 301 relacionadas ao trabalho forçado como “irremediavelmente falhas” em um estudo publicado pela instituição. Ele estima que essa medida pode custar cerca de US$ 100 bilhões anualmente aos consumidores americanos. Na mesma linha crítica, Scott Lincicome, vice-presidente do Cato Institute, caracterizou as tarifas analisadas como “mais uma rodada de tarifas fictícias” (sham tariffs), manipuladas para recriar encargos tarifários anteriormente anulados pela Justiça dos EUA.
Indústria manufatureira sofre o principal impacto
A soma dessas duas tarifas resulta em uma tarifa média efetiva sobre os produtos brasileiros que chega próxima a 18%, estabilizando-se em níveis elevados. O peso cumulativo da alíquota pode chegar até 37,5%, afetando quase exclusivamente o setor industrial e comprometendo a competitividade dos produtos manufaturados nacionais.
Dentre os setores mais impactados está o de calçados, cuja principal destinação externa é o mercado norte-americano. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) revisou suas expectativas para 2026, prevendo agora uma queda nas exportações que aumentou de 3,6% para 7,1%. Em comunicado oficial emitido pela entidade, o presidente-executivo Haroldo Ferreira destacou como essa tarifa adicional prejudica diretamente as empresas: “a imposição dessa nova tarifa diminui drasticamente a competitividade do calçado brasileiro nos EUA e inviabiliza muitas operações que estavam sendo recuperadas”.
Um efeito semelhante ocorre com os setores têxtil e confecção. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) alerta que a perda no mercado dos EUA pode acelerar transferências produtivas para países vizinhos do Mercosul como o Paraguai, onde as sobretaxas não foram aplicadas. Outros segmentos como máquinas, equipamentos e produtos químicos não farmacêuticos também enfrentarão perdas consideráveis.
A seletividade da medida fica evidente na proteção conferida aos suprimentos essenciais para a economia americana. Produtos significativos nas relações comerciais bilaterais – incluindo aeronaves e componentes da Embraer, petróleo, carne bovina, café, suco de laranja e insumos farmacêuticos – mantiveram isenções ou tratamento preferencial. Isso demonstra que o protecionismo atinge principalmente os setores com maior mão-de-obra enquanto preserva as necessidades internas dos EUA.
Ineficácia interna escancara a hipocrisia de Washington
A incoerência nas justificativas norte-americanas é evidenciada pela ineficácia das fiscalizações realizadas dentro dos próprios Estados Unidos. Dados oficiais da U.S. Customs and Border Protection (CBP) mostram que os valores embarcados interrompidos sob suspeita de trabalho escravo são irrisórios: apenas US$ 1,75 bilhão em 2024; esse número caiu ainda mais nos anos seguintes – uma quantia insignificante diante dos trilhões em mercadorias contaminadas importadas anualmente pelo país.
Estudos realizados por organizações internacionais junto com relatórios governamentais reconhecem que os EUA consomem grandes volumes de produtos envolvidos com trabalho forçado devido a esquemas comerciais fraudulentos provenientes de terceiros países. Com retaliações tarifárias amplas contra 59 países e também contra a União Europeia enquanto falha em conter esses bens irregulares dentro do seu território, Washington revela a hipocrisia dessa medida ao usar direitos humanos como pretexto para impor barreiras protecionistas.
Avanço da diversificação
Ao mesmo tempo em que Brasília trabalha na defesa diplomática e legal frente à situação atual, o setor exportador busca alternativas rapidamente. No primeiro semestre deste ano (2026), a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 9,4%, alcançando seu menor nível desde que esta série histórica começou em 1997. Em contraste com essa redução nos negócios com os EUA, a China tem absorvido essa fatia redistribuída e se firma cada vez mais como principal destino das mercadorias brasileiras.
Analisando o cenário do comércio exterior atual, Welber Barral – ex-secretário de Comércio Exterior – ressaltou que as restrições impostas por Washington impulsionam um necessário movimento geográfico reestruturador nas trocas comerciais; isso transforma as práticas comerciais numa estratégia focada na gestão geográfica do risco visando mitigar dependências. Da mesma forma, Leonardo Paz do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) comentou à imprensa sobre essa perda no espaço ocupado pelo mercado norte-americano: “a diminuição do papel dos EUA era previsível diante da ascensão da China como principal parceiro comercial do Brasil desde 2009”.
Ao usar bandeiras sociais e direitos humanos como justificativa para erigir barreiras unilaterais, os Estados Unidos expõem as contradições presentes na sua política externa. O Brasil conta com rigorosos mecanismos destinados ao combate ao trabalho escravo e mantém fiscalização constante em seu território; assim responde à arbitrariedade com firme defesa da sua soberania além da expansão das relações comerciais com novos parceiros globais.
