A intensa atividade militar dos Estados Unidos no conflito com o Irã resultou em uma drástica redução nos estoques de armamentos essenciais, o que aumenta a pressão sobre o presidente Donald Trump para buscar uma solução para essa guerra.
Na última semana, fontes revelaram que as forças armadas americanas esgotaram quase todo o estoque de dois de seus mísseis mais significativos e de longo alcance: o ATACMS e o PrSM.
Esses mísseis, com custo superior a US$1 milhão cada, são projetados para atingir alvos distantes sem expor pilotos americanos aos sistemas de defesa inimigos.
Estimativas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) indicam que aproximadamente 65% dos interceptadores Patriot disponíveis antes do início da guerra foram utilizados entre fevereiro e julho.
O sistema THAAD, utilizado para neutralizar mísseis balísticos, também viu sua quantidade diminuir em pelo menos 38%.
Informações divulgadas posteriormente evidenciam um cenário ainda mais preocupante. O número de interceptadores Patriot caiu de cerca de 2.330 unidades antes do conflito para aproximadamente 800, enquanto os estoques do THAAD foram reduzidos de 452 para em torno de 250.
Essas estimativas coincidem com dados internos dos Estados Unidos, conforme apurado por fontes consultadas.
A guerra também consumiu quase metade do arsenal americano mundial de mísseis de cruzeiro Tomahawk, segundo uma das fontes mencionadas.
Na quinta-feira (6), Trump admitiu pela primeira vez que a disponibilidade de certos tipos de munição está se tornando crítica. “Temos estoques um pouco mais apertados em alguns tipos [de mísseis], mas estamos recebendo novas unidades todos os dias,” afirmou ele.
Apesar de garantir que os Estados Unidos possuem “quantidades enormes” de armamentos, Trump reconheceu a necessidade de reabastecer os arsenais diante da possibilidade de novos conflitos.
“Precisamos ter mais. Outras situações podem surgir,” disse ele.
A guerra impacta o arsenal estratégico
No Pentágono, a preocupação vai além da capacidade atual de continuar atacando o Irã; há temor sobre como um conflito prolongado afetará a força militar americana em outras regiões do mundo.
Os mísseis ATACMS e PrSM são considerados cruciais para possíveis confrontos contra adversários com sistemas avançados de defesa aérea. Já os interceptadores Patriot e THAAD desempenham um papel fundamental na proteção das tropas, bases militares e aliados norte-americanos contra ameaças balísticas.
Um funcionário do governo americano descreveu os estoques dos sistemas Patriot e THAAD como “extremamente baixos”.
A situação é ainda mais complicada pela dificuldade em reabastecer esses armamentos. Alguns mísseis custam milhões por unidade e podem levar até dois anos para serem produzidos novamente.
O desgaste dos arsenais já faz parte das discussões internas sobre até quando os Estados Unidos podem manter ataques ao Irã sem comprometer sua capacidade de resposta a uma nova crise internacional.
Relatos na imprensa americana indicaram que Trump decidiu não prosseguir com uma nova ofensiva significativa contra o Irã após ser alertado por assessores militares sobre os níveis críticos dos estoques.
No entanto, uma autoridade americana contestou essa narrativa, atribuindo a decisão à pressão vinda de países da região do Golfo Pérsico.
A diminuição do arsenal já havia gerado preocupações especialmente em relação a um possível confronto com a China. O coronel reformado dos Fuzileiros Navais Mark Cancian, responsável por um estudo do CSIS, afirmou que os estoques atingiram um “nível perigoso” caso Washington necessite entrar em uma nova guerra.
Cancian observou que o desgaste das munições poderia ter influenciado “a decisão de pausar a campanha aérea”, embora não tenha sido o único fator considerado.
A dinâmica da guerra alterou parte da lógica dissuasória pretendida por Washington. Com a redução dos interceptadores disponíveis, qualquer novo ataque precisa levar em conta a capacidade iraniana de retaliar com mísseis direcionados às bases americanas e instalações estratégicas aliadas no Golfo Pérsico.
Pentágono busca reposição urgente
Diante dessa situação alarmante, o Pentágono intensificou esforços junto à indústria bélica para acelerar a produção de munições. Na quarta-feira (5), Steve Feinberg, secretário adjunto da Defesa, enviou um memorando aos principais fabricantes exigindo planos dentro do prazo máximo de 21 dias para aumentar a produção e as entregas dos armamentos considerados essenciais.
“Ciclos de desenvolvimento que demoram anos são inaceitáveis,” enfatizou Feinberg no documento acessado pela imprensa. “Precisamos acelerar drasticamente nossos cronogramas e expandir nossa capacidade produtiva agora.”
Dois dias depois, Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, confirmou essa iniciativa e destacou que o Departamento trabalha na ampliação da aquisição das “armas necessárias aos nossos combatentes no ritmo exigido pela ameaça.”
No entanto, esse problema não pode ser solucionado rapidamente. Embora a indústria americana esteja aumentando sua produção, especialistas alertam que as capacidades atuais das fábricas são insuficientes para repor rapidamente os estoques desgastados por um conflito prolongado.
Antes mesmo dos ataques ao Irã, líderes militares alertavam sobre a pressão nos arsenais devido ao fornecimento contínuo de armas para Israel e Ucrânia; uma nova campanha poderia consumir munições cuja reposição levaria anos inteiros.
A pressão leva Trump à mesa de negociações
<pNeste contexto desafiador, Trump começou a buscar com mais afinco uma solução negociada para o conflito.
Os EUA e o Irã firmaram um cessar-fogo em junho; no entanto, Washington reinstaurou um bloqueio à navegação iraniana em julho — ação considerada por Teerã como uma violação da trégua. Uma série de ataques americanos durante duas semanas daquele mês não conseguiu romper o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
No momento atual, Teerã está negociando com Omã um acordo visando organizar novas rotas marítimas pelo estreito — via essencial através da qual circulava cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito comercializados globalmente antes do início da guerra.
Nesta segunda-feira (10), Esmaeil Baghaei, porta-voz do ministério das Relações Exteriores iraniano, comentou que as conversações estavam avançando “de forma tranquila e construtiva”, havendo já um entendimento sobre as rotas planejadas; no entanto, questões técnicas ainda precisam ser resolvidas.
Entretanto, Teerã condiciona a normalização das atividades marítimas ao cumprimento das reivindicações apresentadas aos Estados Unidos. Essas incluem o fim das sanções econômicas e ameaças militares além da reparação pelos danos causados durante o conflito.
Esse impasse coloca Washington em uma posição delicada: enquanto o desgaste nos arsenais torna caro prolongar ou intensificar a guerra, aceitar as condições iranianas pode complicar os esforços de Trump em apresentar o fim do conflito como uma vitória diplomática dos EUA.
Trump endurece exigências nas negociações
Diante da crescente pressão por um acordo pacífico, Trump anunciou nesta segunda-feira uma nova condição nas negociações: exigiu que o próprio Irã pague indenizações pelos danos atribuídos ao país ao longo dos últimos 50 anos.
“Se houver indenizações a serem pagas, acredito que o Irã deveria arcar com essas despesas,” afirmou Trump durante coletiva na Casa Branca.
Em postagem na Truth Social, ele argumentou que Teerã deveria compensar as famílias dos militares americanos mortos em diversos conflitos ao longo dos anos — incluindo vítimas da repressão interna iraniana — além daqueles falecidos no Líbano, Síria, Iémen e Gaza.
Trump chegou até mesmo a incluir entre suas acusações as mortes ocorridas no atentado contra o destróier USS Cole no Iémen em 2000 — ataque realizado pela Al-Qaeda e não pelo Irã.
Essa cobrança surgiu como resposta às demandas por reparações feitas pelo Irã e não fazia parte das discussões anteriores; dessa forma acrescenta um novo obstáculo às conversações que poderiam oferecer aos EUA uma alternativa viável frente à guerra cada vez mais onerosa militarmente.
As consequências desse impasse são extensas tanto no âmbito econômico quanto político: as expectativas sobre um prolongamento do bloqueio ao Estreito de Ormuz elevaram os preços do petróleo em cerca de 5% nesta segunda-feira. A alta nos combustíveis representa mais um desafio para Trump na iminência das eleições legislativas programadas para novembro.
