Nesta segunda-feira (31), durante uma entrevista ao programa Roda Viva, transmitido pela TV Cultura, Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo pela coligação Desperta São Paulo, expressou sua posição contrária à legalização das casas de apostas online. Ele considerou o setor um problema que “não traz benefícios para a economia nacional” e fez um alerta sobre as consequências sociais associadas ao vício em jogos de aposta.
Falta de regulação após legalização
Haddad detalhou que a legalização das apostas virtuais ocorreu nos últimos dias do governo Temer, em novembro ou dezembro de 2018. Na ocasião, foi estabelecido um prazo inicial de dois anos, que poderia ser estendido por mais dois, para que a nova administração regulamentasse o setor. “O Bolsonaro já havia sido eleito nesse momento e tinha a chance de agir como presidente eleito, mas não tomou nenhuma atitude”, criticou.
O candidato ressaltou que durante os quatro anos da gestão Bolsonaro, não houve qualquer tipo de fiscalização ou regulamentação, o que possibilitou a criação de um “ecossistema” que sustenta mídias, clubes esportivos e até mesmo alguns parlamentares. “Existem muitos políticos envolvidos com as apostas, tanto antes quanto depois da legalização”, afirmou.
Impacto financeiro e escassez de empregos
<pAo assumir o Ministério da Fazenda no governo Lula, Haddad se deparou com um setor totalmente fora de controle. “Quando chegamos ao ministério, não tínhamos ideia do que era essa situação, pois nada havia sido feito até então”, relatou. No início, as casas de apostas foram isentas de tributos enquanto o governo decidia como proceder na questão tributária.
Ele revelou ter ficado surpreso com a quantidade de dinheiro envolvido. “Podemos estar falando em cifras entre 40 e 50 bilhões de reais anuais nas casas de aposta. Isso é uma soma significativa e representa uma fração do PIB brasileiro, podendo alcançar até 0,5% do total”, destacou.
Apesar da magnitude financeira do setor, Haddad enfatizou que ele não gera empregos relevantes. “É um mercado digital; portanto, a criação de postos de trabalho é mínima”, disse ele, observando que os recursos costumam circular principalmente por meio de publicidade direcionada a clubes esportivos, veículos de comunicação e políticos.
Atenção à saúde mental e endividamento
O candidato também chamou atenção para a crise relacionada à saúde mental e ao endividamento causada pelo vício em apostas. “Hoje o Brasil enfrenta uma séria crise envolvendo transtornos mentais diversos e uma onda alarmante de endividamento gerada pelo vício nas apostas”, afirmou.
Haddad mencionou algumas iniciativas do Ministério da Saúde voltadas para abordar essa problemática, como a implementação do botão para autoexclusão nas plataformas online e o treinamento destinado aos profissionais da saúde para lidar com dependentes. “Contudo, sou cético; após quatro anos sem regulamentação alguma, parece que criamos um problema que necessita ser discutido publicamente”, comentou.
Apoio à proibição e necessidade de debate público
Quando questionado diretamente sobre sua posição quanto à proibição das apostas virtuais, Haddad prontamente respondeu: “Sim”. Ele defendeu que o tema deve ser amplamente debatido pela sociedade.
Além disso, Haddad sugeriu que instituições financeiras disponibilizem dados sobre o nível de endividamento das pessoas em relação às apostas e que especialistas em saúde apresentem os efeitos negativos desse vício.
Finalizando sua explanação, Haddad afirmou que após investigar mais afundo a questão chegou à conclusão de que as casas de apostas não trazem benefícios ao crescimento econômico do país ou ao bem-estar da população. “Depois de quatro anos sem qualquer regulação sob o governo Bolsonaro, conseguimos abrir essa caixa preta e agora temos um problema sério em mãos”, concluiu.
