Nesta segunda-feira (15), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Évian-les-Bains, na França, para participar da Cúpula do G7. Convidado por Emmanuel Macron, Lula faz parte de um seleto grupo de economias emergentes — que inclui Índia, Coreia do Sul, Egito e Quênia — convocado para discutir “novas parcerias e solidariedade internacional”.
Entretanto, além dos diálogos diplomáticos, a missão brasileira na França é impulsionada por uma urgência geopolítica: enfrentar as restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
O cenário comercial e a defesa contra o protecionismo
A presença de Lula no G7 ocorre em um período particularmente desafiador para as exportações brasileiras. Nos EUA, o governo de Donald Trump não só deu continuidade à investigação do USTR, resultando em uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros — sob a justificativa de que o sistema de pagamento Pix prejudica operadoras de cartões americanas — mas também tomou uma medida inédita ao classificar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). Na Europa, a União Europeia decidiu banir a importação de carnes, peixes e mel do Brasil, com efeitos programados para setembro.
Frente a esse contexto complicado, o Planalto tem adotado uma abordagem de “movimento lateral”. Ao invés de confrontar diretamente Trump ou os representantes da UE durante a cúpula, Lula opta por diversificar suas alianças na busca por um escudo geopolítico. Assim, ganha destaque a reunião com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi. O objetivo é estabelecer as bases para um acordo de livre comércio entre Mercosul e Japão, aproveitando a oportunidade gerada pela guerra comercial americana. Da mesma forma, o encontro com Guy Parmelin, presidente da Suíça, visa desbloquear e fortalecer o acordo entre o bloco sul-americano e a EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio).
Encontros bilaterais estratégicos e a influência de Trump
A agenda bilateral do presidente já começou agitada antes mesmo da abertura formal dos trabalhos. Na divisa entre França e Suíça, Lula se encontrou com Parmelin para discutir questões relacionadas à transição energética, minerais críticos e biotecnologia. Com Emmanuel Macron, as conversas giraram em torno da cooperação nas áreas de defesa (como no programa dos submarinos) e soberania digital (supercomputadores), embora sem deixar de lado os conflitos existentes. Macron tem se oposto ao acordo Mercosul-UE para proteger os agricultores franceses e viu seu bloco impor barreiras sanitárias aos produtos brasileiros — uma contradição que o Itamaraty descreveu como “surpresa e preocupação”.
Nos bastidores da cúpula, a presença de Donald Trump traz uma sombra sobre todo o evento. O Palácio do Planalto decidiu não solicitar uma nova reunião bilateral, justificando que as equipes técnicas ainda não apresentaram as propostas prometidas para resolver as questões tarifárias desde o encontro realizado em maio na Casa Branca.
Além disso, o cenário internacional é influenciado pelo recente anúncio de um acordo entre EUA e Irã; os desdobramentos sobre o programa nuclear iraniano e a reabertura do Estreito de Ormuz serão indicadores importantes para a segurança energética global — questão que afeta diretamente a matriz industrial brasileira.
Governança global, inteligência artificial e a disputa pelos minerais críticos
Durante os painéis deliberativos da cúpula, Lula deve representar os interesses do Sul Global. Na terça-feira (16), ao discutir parcerias internacionais, ele pretende exigir um aumento na Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) e propor reformas em instituições como ONU e OMC, criticando práticas unilaterais sem mencionar os Estados Unidos especificamente.
A questão dos minerais críticos deverá ser um dos pontos mais tensos das discussões. Enquanto EUA e China disputam liderança nesse segmento vital para a transição energética, o Brasil chegará à cúpula com uma proposta firme: valorizar os recursos no local onde são extraídos. O governo brasileiro rejeita simplesmente fornecer matérias-primas baratas às potências ocidentais e asiáticas.
Por fim, durante um almoço dedicado à Inteligência Artificial, a delegação brasileira deverá reforçar a necessidade global por regulação das big techs, alinhando-se aos países que buscam maior autonomia digital. Em meio a reuniões diplomáticas e sessões deliberativas, esta é a décima participação de Lula no G7 — refletindo um Brasil que procura alternativas no Sul Global e na Ásia diante das pressões protecionistas do Norte.
