Minas Gerais e o Palco da Democracia: Reflexões sobre a Indecisão

Existem eleições que marcam uma geração e outras que determinam se haverá gerações a serem lembradas. O pleito de 2026 é um desses momentos cruciais. Isso não é uma hipérbole ou um alarmismo eleitoral, mas sim uma análise objetiva de um cenário onde a extrema direita avança de forma coordenada nas ruas, nos parlamentos e nas urnas, tanto no Brasil quanto no exterior. No dia 4 de outubro, essa realidade irá se impor com uma força sem precedentes.

Neste contexto, Minas Gerais não é apenas mais um estado na balança eleitoral do presidente Lula; trata-se do segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com quase 16 milhões de eleitores, historicamente decisivo em eleições presidenciais. Saborear um pão de queijo acompanhado de um bom café em Nice pode ser tão impactante quanto as decisões nas urnas.
Além disso, Minas representa o palanque mais complicado e fragmentado que o campo democrático enfrenta. A menos de cinco meses para o primeiro turno, ainda não há um nome definido para a candidatura ao governo estadual.

Saiba mais: Programa de Zema é pesadelo neoliberal e ameaça direta ao trabalhador

Para entender a magnitude desse desafio, é essencial analisar as ações de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) nos últimos oito anos. O estado transformou-se em um exemplo nacional do neoliberalismo mais radical: um projeto contínuo voltado para desmontar o Estado, privatizar bens públicos e transferir os custos do chamado “ajuste fiscal” para a população trabalhadora.

As principais empresas estatais enfrentaram tentativas contínuas de privatização. Para facilitar esse processo, Zema e Simões conseguiram aprovar, com o apoio de sua base na Assembleia Legislativa, a PEC do Cala Boca, que eliminou da Constituição estadual a exigência de consulta popular antes da venda de estatais.

No que diz respeito à dívida pública, houve um aumento significativo de 63% nesse período. O Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados), apesar de ter sido considerado um instrumento para barrar o regime de recuperação fiscal proposto por Zema, aprofunda as privatizações e congela investimentos. A contradição é evidente: enquanto o governo afirma não ter recursos para saúde ou educação, acumula bilhões em renúncias fiscais destinadas a grandes empresários.

Na área da educação, o desmonte promovido por Zema e Simões adquiriu contornos emblemáticos. O leilão das escolas na Bolsa de Valores de São Paulo simbolizou perfeitamente o projeto político deste governo: as instituições públicas sendo tratadas como ativos financeiros.

A tentativa de militarização das escolas foi derrotada nas assembleias escolares devido à mobilização do movimento estudantil; no entanto, ela retornou disfarçada como transformação das escolas estaduais em Colégios Tiradentes, descaracterizando ambas as instituições.

A Uemg e a Unimontes continuam em estado precário e sob pressão política direta — Simões chegou a ameaçar interferir na nomeação da reitoria da Uemg, gerando forte resistência da comunidade acadêmica.

Regiões inteiras no interior permanecem negligenciadas, marcadas por desigualdade estrutural e falta de políticas eficazes para o desenvolvimento.

O setor mineral opera conforme suas normas há décadas: sob uma lógica predatória que concentra lucros em grandes corporações enquanto os impactos sociais e ambientais recaem sobre a população mineira. Os desastres em Mariana e Brumadinho ainda estão frescos na memória e não podem ser ignorados; Minas Gerais não suporta mais quatro anos desse modelo.

No outro lado do espectro político, além de Simões, está a figura do senador Cleitinho (Republicanos): seu populismo apelativo disfarçado por uma retórica simplista. O senador construiu sua imagem como “aliado do povo”, prometendo acabar com a escala 6×1; porém, na primeira oportunidade concreta para demonstrar isso, apoiou a PEC da escala 7×0 — uma proposta articulada por Flávio Bolsonaro (PL), que praticamente extingue a CLT sob pretextos técnicos.

Alinhado ao deputado Nikolas Ferreira (PL), também contrário ao fim da escala 6×1, Cleitinho tem plena consciência do lado em que está quando se trata dos direitos da classe trabalhadora. Atualmente ele oscila entre decidir ou não concorrer ao governo estadual; no entanto, as tendências indicam que sua candidatura é improvável.

Isso não simplifica o cenário para os progressistas; pelo contrário: revela que a direita mineira se reorganiza para criar um palanque ainda mais coeso entre seus membros enquanto nós ainda não apresentamos uma resposta adequada — esse é o verdadeiro perigo.

A ausência de Cleitinho não torna a disputa mais simples; pelo contrário, indica que a direita também está lutando intensamente por espaço politico em meio às incertezas atuais – isso abre uma janela histórica importante para o campo democrático. Nem mesmo Mateus Simões conseguiu ganhar tração como candidato apoiado por Zema apesar dos esforços significativos direcionados nessa direção.

A saída de Rodrigo Pacheco da disputa pelo governo estadual vai muito além da desistência pessoal: ela expõe uma crise na construção política que precisa ser enfrentada pelo campo progressista.

Pacheco era visto como o caminho mais seguro e confortável; sem ele no jogo, agora essa ala democrática é forçada a realizar algo que talvez tivesse sido necessário antes: desenvolver uma candidatura verdadeira com raízes populares capaz de competir contra a estrutura montada por Zema e Simões. Este vácuo não deve ser encarado como uma derrota; pelo contrário: deve servir como um chamado à ação urgente. O tempo perdido pelo campo progressista refletindo sobre si mesmo é tempo aproveitado pela direita para firmar suas candidaturas e fortalecer sua estrutura.

A luta pelo Senado também faz parte dessa disputa maior e não pode ser considerada secundária. A extrema direita tem focado suas atenções no Senado como prioridade estratégica devido ao seu papel crucial na aprovação dos ministros do STF, nos julgamentos impeachments e nas limitações impostas sobre governos futuros.

Em Minas Gerais, garantir pelo menos uma das duas vagas disponíveis deve estar no centro da estratégia do campo popular e democrático. É imprescindível incluir Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem nessa disputa — ela possui trajetória política sólida e capacidade comprovada para enfrentar os desafios atuais.

No entanto, o cerne dessa eleição mineira reside na luta pela governadoria. Não existe palanque para Lula em Minas sem uma candidatura ao governo bem estruturada e competitiva capaz de mobilizar forças democráticas além dos limites habituais.

É fundamental construir uma candidatura que dialogue com trabalhadores em Betim, jovens em Montes Claros, agricultores familiares no Triângulo Mineiro e todos aqueles que vivem sob os riscos das barragens. Esse processo não pode ser feito através de acordos superficiais ou nomes remanescentes após desistências alheias; é necessário criar uma frente ampla genuína.

O campo democrático em Minas Gerais só conseguirá vencer essa eleição ao governo se unir forças — evitando divisões internas ou candidaturas “egotripantes” com discursos maniqueístas como “eu ou o caos”. A vitória virá através da formação de uma frente que agregue partidos políticos diversos, movimentos sociais ativos, sindicatos representativos, entidades estudantis engajadas e lideranças progressistas dispostas a construir um projeto concreto para reconstruir Minas Gerais.

Tais esforços devem incluir um plano claro que coloque o Estado novamente como ferramenta fundamental para o desenvolvimento socialmente responsável — defendendo estatais estratégicas e ampliando investimentos em educação pública e ciência — enfrentando também modelos extrativistas predatórios enquanto revitaliza esperanças em regiões inteiras abandonadas por Zema e Simões.

A ampliação das bancadas na Câmara Federal assim como na Assembleia Legislativa mineira faz parte dessa mesma luta; pois cada voto contará significativamente nos próximos congressos.

Minas Gerais está sob disputa intensa. O Brasil também enfrenta esse embate crucial. E esta eleição não será apenas mais uma oportunidade perdida; é hora decisiva — Minas terá papel central na reeleição de Lula e será fundamental para garantir as mudanças estruturais necessárias ao país rumo ao desenvolvimento soberano, justiça social verdadeira e democracia efetiva.

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By Aconteceu de Fato

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