Israel ignora Trump e experimenta pacto de capitulação dos EUA com o Irã

Na semana crucial para a confirmação do memorando provisório assinado no último domingo (14) entre Irã e Estados Unidos, que simboliza a capitulação da Casa Branca na nova guerra do Golfo, Israel provoca uma crise com Washington, voltando a ser visto como um dos principais fatores que ameaçam o entendimento para pôr fim ao conflito.

Com a pressão crescente para negociar após a derrota no conflito, Donald Trump busca agora manter um acordo que depende de uma situação que os EUA já não parecem conseguir controlar totalmente: a disposição de Benjamin Netanyahu e do estado israelense em seguir as diretrizes estabelecidas.

Nesta segunda-feira (15), o primeiro-ministro de Israel declarou que seu país não se sente obrigado a respeitar as condições do pacto firmado entre Estados Unidos e Irã, prometendo manter suas forças no sul do Líbano “pelo tempo necessário”.

Tal posicionamento desafia uma das exigências centrais de Teerã, que considera a cessação dos ataques israelenses ao Líbano como um elemento essencial do memorando apresentado por Trump.

“Qualquer ataque israelense ao Líbano ou a presença israelense em solo libanês é uma violação do acordo provisório”, afirmou o chanceler iraniano Abbas Araqchi nesta terça-feira (16).

A situação expõe uma mudança significativa na dinâmica política. Por muitos anos, Washington e Tel Aviv atribuíram ao Irã a responsabilidade pelas ações do chamado Eixo da Resistência ao sionismo, uma aliança que inclui grupos como o Hezbollah libanês.

Atualmente, Teerã argumenta que cabe aos Estados Unidos exercer controle sobre Israel e evitar novos ataques contra o Líbano.

“Ninguém em nossa região acredita que o regime sionista atua sem coordenação com os Estados Unidos”, declarou Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano. Ele acrescentou que “os Estados Unidos serão totalmente responsabilizados pelas consequências de qualquer agressão militar por parte do regime sionista”.

As declarações colocam Trump frente a um desafio imediato. O presidente dos EUA anunciou que o pacto com o Irã está “fechado” e que novas negociações se iniciarão na sexta-feira (19), na Suíça. Contudo, Netanyahu reafirma que Israel manterá sua liberdade de ação no Líbano e continuará sua ocupação em áreas sul-libanesas.

A mídia israelense reporta que Netanyahu ficou surpreso com o avanço das tratativas entre Washington e Teerã e reconhece que Israel teve pouca influência nas condições do acordo. Autoridades israelenses entrevistadas classificaram o entendimento como “desfavorável para Israel”, pois não atende às principais demandas de Tel Aviv.

Entre os tópicos deixados de fora das negociações estão o programa de mísseis iraniano e o suporte de Teerã a seus aliados regionais. Essas questões foram utilizadas por Trump e Netanyahu como justificativa para o conflito, mas não farão parte da próxima rodada de diálogos.

O debate sobre o programa nuclear iraniano também foi adiado para uma fase posterior. Na prática, Washington encerra sua ofensiva sem derrubar o governo iraniano, sem eliminar sua capacidade estratégica e sem exigir a destruição imediata de seu programa nuclear.

Netanyahu tentou apresentar a guerra como uma vitória. Em coletiva de imprensa, afirmou que Israel “salvou” seu país da aniquilação e eliminou ameaças nucleares vindas do Irã. No entanto, ele admitiu desconhecer todos os detalhes do entendimento assinado por Trump e reafirmou que não renunciará à ação militar no Líbano.

Tais contradições revelam o crescente isolamento do premiê israelense. Netanyahu acreditava que aliar-se aos Estados Unidos na guerra poderia remodelar o Oriente Médio, enfraquecer o Irã e fortalecer sua posição interna antes das eleições.

No entanto, o resultado foi um acordo mediado por Washington e Teerã, sem a participação direta de Israel e com cláusulas que podem restringir suas ações militares.

Embora Trump busque apresentar o pacto como um triunfo, ele celebra uma solução para uma crise da qual ele mesmo contribuiu para criar.

A reabertura do Estreito de Ormuz, celebrada pela Casa Branca como uma vitória, apenas tenta restaurar uma situação anterior ao conflito. O Irã demonstrou sua capacidade de interromper essa rota vital para o petróleo mundial e forçou Washington a entrar em negociações.

O Líbano emerge como um teste significativo dessa nova configuração de poder. Mesmo após o anúncio do memorando, Israel intensificou seus ataques contra o país. Trump expressou descontentamento com a maneira como Israel gerenciou a situação no território libanês, mas ainda não conseguiu impor mudanças claras ao seu aliado.

A questão central agora transcende se o acordo entre Estados Unidos e Irã será formalizado na Suíça; é saber se Trump conseguirá conter Netanyahu após ter perdido a guerra e assinado um acordo sob condições desfavoráveis.

Caso Israel continue atacando o Líbano, ficará ainda mais evidente a fragilidade da posição dos Estados Unidos no Oriente Médio. Embora Washington mantenha um discurso forte, já não consegue garantir que seu principal aliado respeite um pacto negociado para pôr fim à guerra iniciada pelos próprios EUA.

By Aconteceu de Fato

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