A misteriosa perna peluda continua a causar mistério

Assisti ao filme O Agente Secreto, que concorre, neste domingo (15), a quatro categorias do Oscar 2026, entre elas melhor filme e melhor ator, e passei dias voltando mentalmente a algumas cenas. Algumas imagens parecem continuar acontecendo dentro da gente, como se só se completassem no nosso imaginário. Não sou crítica de cinema, mas me arrisco a comentar alguns pontos que mais me fizeram refletir. Me acompanhem!

A primeira cena já causa impacto: um cadáver abandonado num posto de gasolina, no meio da estrada. A imagem quase lembra um filme de terror. Mas ali o filme parece anunciar um de seus temas centrais: a banalização da morte. Ao longo da narrativa, ela reaparece cercada por uma estranha normalidade. É difícil não fazer um paralelo com contextos de regimes autoritários. Quanto mais autoritário é um sistema político, mais a vida humana é relativizada.

A beleza estética do filme também chama atenção. Fui transportada para um Pernambuco vivo e culturalmente pulsante dos anos 1970. O carnaval aparece como expressão de vitalidade e resistência popular. Há algo político nessa insistência em celebrar a vida, ocupar as ruas e produzir cultura quando tudo ao redor parece querer impor medo e silêncio.

Outro elemento que intriga o espectador é a famosa perna cabeluda. Ela surge primeiro como mistério e nos faz lembrar das lendas urbanas pernambucanas. Mas, ao longo do filme, fica difícil não enxergar ali também uma metáfora. A perna cabeluda aparece como presença difusa, associada ao medo, algo que circula, invade espaços e ninguém consegue explicar completamente. Em algum momento, deixa de ser apenas uma lenda e passa a representar o clima de tensão que atravessava o país naquele período.

No centro da história está Armando, que passa a usar o nome Marcelo, interpretado por Wagner Moura, que concorre ao prêmio de melhor ator no Oscar. Professor universitário, defensor da pesquisa e da produção de conhecimento no Brasil, dentro de uma universidade nordestina. Um personagem que representa algo profundamente incômodo para regimes autoritários: o pensamento crítico. Não por acaso, é rotulado de comunista, como tantos outros que ousaram defender a liberdade intelectual e autonomia universitária. A perseguição que sofre revela algo que regimes autoritários sempre souberam: ideias também podem ser perigosas.

A própria forma como o filme é contado reforça esse ambiente de incerteza. A narrativa é fragmentada, quase como um quebra-cabeça, sendo montado diante do espectador. Aos poucos, tentamos reconstruir o que aconteceu. Essa escolha parece dialogar com o contexto retratado: sistemas autoritários não apenas reprimem, mas também tentam interromper histórias, apagar rastros e transformar acontecimentos em boatos ou lendas.

Talvez seja por isso que a perna cabeluda faça tanto sentido na trama. Ela simboliza o lugar onde a verdade se mistura com o medo e o imaginário popular. Porque, no fim das contas, O Agente Secreto não fala apenas de um Brasil dos anos 1970. Ele nos lembra que regimes autoritários não sobrevivem apenas da violência explícita, mas da naturalização dela. Quando a morte se torna banal, a vida passa a valer menos.

E é justamente nesse momento que a resistência, às vezes silenciosa, às vezes festiva, às vezes criativa, se torna indispensável.

By Aconteceu de Fato

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