Aprovação de Jerusalém como capital de Israel é um passo em direção ao genocídio

A ala extrema-direita do Brasil tem adotado bandeiras internacionais inspiradas por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, além de grupos mais radicais da direita americana e israelense.

No sábado (11), Flávio Bolsonaro, que é pré-candidato à Presidência da República, reiterou sua intenção de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, caso vença as eleições no final do ano.

Essa afirmação foi feita durante uma entrevista para o Canal 14, uma emissora israelense com perfil de extrema direita, frequentemente associada à Jovem Pan. Na ocasião, o político definiu Israel como um aliado estratégico primordial para um possível governo sob sua liderança.

José Reinaldo Carvalho, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), considera que essa proposta é um claro reflexo da subserviência ao trumpismo.

“Flávio Bolsonaro está se esforçando ao máximo para ser visto como um grande aliado de Trump. Parte desse esforço inclui adotar toda a agenda proposta por ele. Essa é uma das promessas mais tradicionais desde o primeiro mandato de Trump”, comentou ao Portal Vermelho.

Durante a sua conversa com representantes sionistas, o pré-candidato enfatizou a importância de Israel como parceiro estratégico e se comprometeu a fortalecer os laços entre os dois países.

“A partir de 2027, o Brasil terá um presidente que reconhece Israel e aprecia o povo judeu”, declarou.

Ele também defendeu a participação do Brasil nos “Acordos de Isaac”, iniciativa inspirada nos Acordos de Abraão promovidos pelos Estados Unidos, visando aumentar a integração política, econômica e militar entre Israel e seus aliados.

Flávio ainda elogiou Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro israelense, que enfrenta um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional devido a crimes relacionados à guerra em Gaza.  

“Netanyahu é uma pessoa notavelmente inteligente e corajosa. É necessário ter alguém com esse perfil para combater o terrorismo”, afirmou.

A perspectiva de José Reinaldo Carvalho é completamente diferente. Para ele, a defesa da mudança da embaixada para Jerusalém está intrinsecamente ligada ao apoio às políticas dos “sionistas expansionistas e genocidas que governam Israel”.

“Transferir a embaixada para Jerusalém seria reconhecer a pretensão israelense de exercer controle exclusivo sobre uma cidade cuja condição continua sendo contestada internacionalmente”, argumenta.

O analista salienta que tal proposta “não contribui em nada para a paz na região”.

“Uma paz genuína só pode ser alcançada mediante o respeito aos direitos do povo palestino e pela vontade coletiva, nunca pela imposição da força ocupante — especialmente quando essa ocupante é uma potência criminosa e genocida”, acrescenta José Reinaldo.

A antiga promessa bolsonarista

A mudança da embaixada brasileira para Jerusalém é um antigo desejo da extrema-direita global.

Em 2017, Donald Trump rompeu com décadas de consenso diplomático ao reconhecer Jerusalém como capital israelense e transferir a representação diplomática dos EUA para lá.

Essa decisão foi amplamente condenada por diversos países e por resoluções sucessivas das Nações Unidas, que consideram Jerusalém uma questão pendente e defendem que seu status deve ser negociado entre israelenses e palestinos.

Os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental — ocupada por Israel desde 1967 — como capital de um futuro Estado palestino.

“Jerusalém Oriental não é apenas um símbolo religioso ou cultural. Ela possui relevância política significativa e importância territorial crucial para a formação de um Estado palestino viável”, esclarece José Reinaldo.

Após assumir a presidência em 2019, Jair Bolsonaro tentou seguir essa mesma linha. Contudo, enfrentou resistência de diplomatas e membros do agronegócio preocupados com as consequências nas relações comerciais com países árabes significativos para o Brasil.

Diante dessa pressão, Bolsonaro recuou na ideia inicial e optou apenas pela abertura de um escritório comercial brasileiro em Jerusalém. Contudo, tanto Eduardo Bolsonaro quanto Netanyahu consideraram essa decisão como um passo preliminar para uma futura relocação da embaixada brasileira para a cidade.

Adesão ao genocídio

José Reinaldo Carvalho classifica essa proposta como uma violação do direito internacional.  

“O que Flávio Bolsonaro sugere demonstra sua falta de alinhamento com o direito internacional e com os princípios democráticos globais. Sua política externa revela total submissão aos interesses imperialistas estadunidenses e às agendas trumpista e sionista israelense. Ao defender essa ideia, ele se torna cúmplice dos crimes cometidos contra o povo palestino”, argumenta.

Ele ressalta que diversas resoluções da ONU já trataram desse assunto. A Resolução 478 do Conselho de Segurança rejeitou tentativas israelenses de alterar unilateralmente o status da cidade e pediu aos países que retirassem suas missões diplomáticas dela.

“É essencial manter esse marco jurídico internacional porque impede que ações militares ou violações sejam consideradas fontes legítimas de soberania.
A verdadeira fonte deve ser o direito: primeiro o direito do povo daquela nação e segundo o direito internacional construído sobre essas bases”, defende José Reinaldo.

Ele explica ainda que “um dos pilares fundamentais estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial é a proibição da ocupação territorial por meio da guerra ou da violação da soberania nacional”.

Reconhecer Jerusalém como parte integrante de Israel seria premiar essa política opressora, completa ele: “A proposta apresentada por Flávio Bolsonaro colocaria o Brasil em conflito direto com normas multilaterais e legais internacionais”.

De acordo com ele, essa ação debilitária — ou até inviabilizaria — os esforços para criar um Estado palestino soberano com Jerusalém Oriental como capital.

O presidente do Cebrapaz lembra que a própria ONU considera Jerusalém uma questão final sem solução definida até agora e não reconhece validade jurídica aos assentamentos israelenses nos territórios ocupados.

Ainda ressaltou que desde 2010 o Brasil reconhece oficialmente o Estado da Palestina nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias em 1967.

“Transferir nossa embaixada para Jerusalém contradiz esse reconhecimento histórico e enfraquece as bases territoriais necessárias à soberania palestina”, conclui José Reinaldo.

Na opinião dele, tal medida não só infringe compromissos internacionais assumidos pelo Brasil como também contraria princípios estabelecidos na Constituição Federal do país. 

“O status futuro de Jerusalém deve ser decidido através de negociações diretas entre as partes envolvidas. Ignorar essa orientação comprometeria a capacidade do Brasil em dialogar efetivamente com diferentes atores no cenário internacional”, alerta ele.

“Traição à causa palestina”

José Reinaldo acredita que uma mudança dessa magnitude teria implicações simbólicas significativas. 

“A mensagem enviada ao povo palestino seria clara: o Brasil abandonou sua luta pela causa palestina”, destaca ele. 

A proposta representaria não só uma legitimação das políticas israelenses quanto uma aceitação tácita da anexação de Jerusalém Oriental. 

“Como esta ocupação está atrelada hoje ao genocídio praticado contra os palestinos, isso também seria encarado como uma adesão ao genocídio”, complementa José Reinaldo. 

Pelo ponto de vista dos palestinos residentes em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza, essa mudança significaria negar-lhes o direito fundamental à criação de um estado independente com sua própria capital.








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By Aconteceu de Fato

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