Dívidas familiares dispararam durante a gestão Bolsonaro, revela Dieese

O Brasil, ao deixar o governo de Jair Bolsonaro (PL), se encontra em uma situação de crescente desigualdade, vulnerabilidade e um endividamento significativo. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio (Peic-CNC) e analisada pelo Dieese, revela que essa deterioração se acentuou principalmente entre os anos de 2019 e 2022.

Esse estudo vai contra a narrativa de uma recuperação econômica rápida após a pandemia. Na verdade, o País vivenciou a intensificação de um modelo econômico onde o crédito dispendioso se tornou uma ferramenta essencial para a sobrevivência financeira.

Os dados da Peic-CNC indicam que a proporção de famílias com dívidas aumentou de 58,9% em dezembro de 2018 para 78% em dezembro de 2022, um crescimento expressivo de 19,1 pontos percentuais em apenas quatro anos. Nenhum outro governo anterior registrou um avanço tão rápido nesse aspecto.

No terceiro ano da administração Lula, por exemplo, o aumento do endividamento foi inferior a três pontos percentuais. A atual gestão implementou iniciativas focadas na renegociação das dívidas, como o programa Desenrola Brasil, criado em 2023, e o Novo Desenrola, anunciado recentemente.

A dívida como política econômica

A escalada da dívida durante a gestão Bolsonaro foi fruto de uma “tempestade perfeita”, resultado da combinação da pandemia com a queda na renda, inflação elevada, precarização no mercado de trabalho e aumento do crédito caro. Em 2020, a Covid-19 paralisou economias globalmente. Esse choque econômico teve repercussões em diversos países.

No entanto, no Brasil, a união entre inflação persistente, altas taxas de juros e uma recuperação baseada na informalidade ampliou as dificuldades enfrentadas pelas famílias. Enquanto algumas nações adotaram medidas para fortalecer a proteção social e manter a renda estável, o Brasil já entrou na crise fragilizado por altos índices de desemprego e informalidade crescente.

Pressionado pelo Congresso e por movimentos sociais, Bolsonaro instituiu um auxílio emergencial de R$ 600. Essa medida teve um impacto relevante na redução temporária da pobreza. Contudo, instituições financeiras aproveitaram a fragilidade social para expandir rapidamente suas ofertas de crédito consignado, cartões e empréstimos pessoais para uma população com renda extremamente instável.

A agressiva expansão do crédito combinada à diminuição das proteções sociais levou muitas famílias a ciclos permanentes de endividamento. Com inflação e desemprego ainda pressionando os mais vulneráveis, o auxílio emergencial foi progressivamente reduzido – primeiro para R$ 300 e depois para R$ 200 – levando muitas famílias a contrair novas dívidas para saldar as anteriores.

O crédito como substituto do salário

A deterioração do mercado de trabalho – que se intensificou após as reformas trabalhista (2017) e da Previdência (2019) – aprofundou essa instabilidade. Os empregos criados eram majoritariamente informais ou com baixos salários. A condução econômica durante esse período crítico contribuiu para firmar uma recuperação centrada na “uberização” do trabalho.

A informalidade forçou muitos trabalhadores a viver sem registro formal, sem estabilidade e com rendimentos variáveis mensalmente. Sem acesso a opções mais baratas de crédito, esse grupo passou a depender dos créditos rotativos dos cartões e das instituições financeiras que cobram juros exorbitantes. Qualquer eventualidade inesperada – seja uma doença ou atraso no aluguel – poderia resultar em dívidas impagáveis.

Simultaneamente, o custo de vida disparava. Em 2021, a inflação alcançou 10,06%, seu maior nível desde 2015. Esse índice afetou diretamente os itens mais consumidos pelas famílias com menos recursos financeiros: alimentos, combustíveis e contas básicas como gás e energia elétrica. Mesmo aqueles que estavam empregados começaram a enfrentar dificuldades para equilibrar suas finanças no final do mês.

Dessa forma, o crédito deixou de ser utilizado apenas para compras excepcionais e passou a financiar despesas básicas como supermercado, aluguel e medicamentos. Essa situação caracterizou-se pela armadilha clássica do superendividamento: as famílias contraíam novos empréstimos para quitar dívidas anteriores e logo necessitavam ainda mais crédito para cobrir os juros acumulados.

A armadilha dos juros

O cenário se agravou com o aumento das taxas de juros iniciado em 2021. Sob a liderança de Roberto Campos Neto – nomeado por Bolsonaro –, o Banco Central implementou um dos ciclos mais agressivos de alta da Selic na história recente do País. A taxa básica subiu dramaticamente de 2% ao ano em março de 2021 para impressionantes 13,75% em agosto de 2022.

Esse aumento acentuou consideravelmente os custos do crédito ao consumidor. Entre os anos de 2020 e 2022, as taxas médias cobradas das famílias saltaram de 41,5% para 52,1% ao ano; no crédito rotativo dos cartões algumas modalidades ultrapassaram os incríveis 400% anuais. O Brasil já operava com uma das estruturas bancárias mais onerosas do mundo; somando-se à inflação elevada e à alta acelerada da Selic fez com que o endividamento se tornasse uma bomba-relógio social.

Outro fator relevante foi o crescente fenômeno da financeirização no cotidiano das pessoas. Bancos digitais e plataformas online multiplicaram as ofertas de empréstimos rápidos frequentemente acompanhados por pouca clareza sobre as taxas efetivas aplicadas.

No final da gestão Bolsonaro emergiu também um novo elemento: as apostas online passaram a captar parte significativa da renda popular especialmente entre jovens e trabalhadores vulneráveis financeiramente. Essas apostas criavam uma falsa percepção de possibilidade de renda extra em meio à pressão financeira já existente.

Enquanto isso, as comunicações oficiais continuavam apresentando indicadores macroeconômicos isolados para sustentar uma imagem positiva da economia. Contudo, essa combinação entre crédito abundante com altos juros e inflação provocou uma dependência financeira crescente nas famílias brasileiras.

Um legado invisível

A pesquisa realizada pelo Dieese traz luz ao debate sobre esse tema complexo. O aumento no endividamento não ocorreu porque os brasileiros gastaram excessivamente; ele se intensificou porque os salários deixaram de ser suficientes para garantir condições mínimas dignas de vida.

No período entre 2019 e 2022 sob administração Bolsonaro foram feitas tentativas para lidar com os impactos sociais da pandemia através do auxílio temporário e expansão do crédito sem reconstruir empregos estáveis ou estabelecer políticas salariais consistentes ou proteção social duradoura. O resultado foi uma economia artificialmente sustentada pelo crescente endividamento das famílias.

A ligeira recuperação do emprego não foi suficiente para aliviar o peso das dívidas acumuladas com juros exorbitantes sobre as finanças familiares. Em setembro de 2022 – apenas um mês antes das eleições presidenciais que consagraram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – cerca de 80% das famílias que recebiam até dez salários mínimos estavam endividadas.

Segundo análises do Dieese esse é um dos principais legados sociais deixados pelo bolsonarismo: um modelo consolidado onde empréstimos caros compensavam temporariamente perdas salariais – até que chegasse o momento da cobrança dessa conta. Durante esse ciclo os brasileiros não conseguiram enriquecer ou ascender socialmente; aprenderam apenas maneiras alternativas para sobreviver enquanto lidavam com um futuro marcado pela acumulação constante de dívidas.

By Aconteceu de Fato

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