Após a recente reunião entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, o governo dos Estados Unidos começou a transmitir mensagens contraditórias em relação a Taiwan, o que aumentou as incertezas sobre a postura de Washington em relação à ilha e intensificou as tensões com Pequim.
Enquanto Trump fez comentários considerados desafiadores pela diplomacia chinesa — incluindo a possibilidade inédita de um diálogo direto com o líder taiwanês Lai Ching-te —, membros da própria administração estadunidense sugeriram uma interrupção temporária na venda de armamentos para Taiwan, em meio ao conflito com o Irã.
As declarações mais expressivas vieram do secretário interino da Marinha dos EUA, Hung Cao, durante uma audiência no Congresso na quinta-feira (21).
Ao ser questionado sobre um pacote de armamentos avaliado em US$14 bilhões destinado a Taiwan, que está aguardando aprovação da Casa Branca há meses, Cao revelou que as vendas estão “em pausa” para assegurar que haja munições suficientes para as operações militares americanas no Oriente Médio.
“Estamos fazendo uma pausa para garantir que temos as munições necessárias para a Epic Fury”, mencionou ele, referindo-se à guerra entre os EUA e o Irã. Ele acrescentou que as vendas militares internacionais “prosseguirão quando o governo considerar adequado”.
A declaração gerou preocupação até mesmo entre parlamentares republicanos próximos do setor bélico. O senador Mitch McConnell expressou sua “preocupação” com a falta de clareza da administração sobre essa questão.
Pressão chinesa após encontro em Pequim
A suspensão das vendas ocorre poucos dias após o encontro entre Trump e Xi Jinping, onde Taiwan foi um dos principais temas polêmicos discutidos.
Conforme reportado pela mídia internacional, Xi alertou diretamente Trump de que os Estados Unidos e a China poderiam “colidir ou até entrar em conflito” caso a questão de Taiwan não fosse abordada adequadamente.
A China considera Taiwan uma parte inseparável de seu território e se opõe historicamente às vendas de armas dos EUA para a ilha, considerando tais ações como uma violação do princípio da “uma só China”.
Nos últimos anos, Washington tem aumentado significativamente os pacotes militares destinados a Taipei e intensificado sua presença naval na região do Indo-Pacífico. Contudo, a estratégia americana permanece marcada pela chamada “ambiguidade estratégica”, onde os EUA armam Taiwan sem deixar claro se intervirão militarmente em um possível confronto direto com a China.
Trump mescla pressão diplomática e ameaças veladas
Após o encontro com Xi Jinping, Trump passou a emitir declarações ambíguas sobre o futuro das relações entre Washington, Pequim e Taipei.
Em entrevista à Fox News ainda durante sua estada em Pequim, o presidente americano se referiu aos pacotes de armamentos para Taiwan como uma “excelente moeda de negociação”, insinuando que poderia usar esse tema como ferramenta nas negociações com a China.
No retorno aos Estados Unidos, Trump afirmou ter discutido Taiwan “em grande detalhe” com Xi Jinping e prometeu fazer uma “determinação” sobre os armamentos pendentes em breve.
Simultaneamente, ele também indicou seu desejo de dialogar diretamente com Lai Ching-te, um gesto que rompendo décadas de protocolo diplomático entre Washington e Taipei.
Nenhum presidente dos EUA em exercício se comunicou oficialmente com um líder taiwanês desde 1979, quando os Estados Unidos transferiram seu reconhecimento diplomático de Taiwan para a República Popular da China.
A possibilidade dessa conversa direta entre Trump e Lai gerou reações imediatas da diplomacia chinesa nesta semana. Pequim reiterou sua oposição “firme” aos contatos oficiais entre autoridades norte-americanas e Taiwan e condenou novas vendas de armas à ilha.
