A edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) destaca a trajetória de Orides Fontela, a poeta que uniu o rigor filosófico à vivência da classe trabalhadora. Escolhendo a escritora de São João da Boa Vista (SP), o evento celebra uma das vozes mais densas da poesia brasileira contemporânea. Orides, que se autodefinia como “proleta” — fusão de proletária e poeta —, desenvolveu uma poesia despojada de adereços, baseada na dura realidade da sobrevivência e na precisão do pensamento.
Nascida em uma família operária, filha de pai analfabeto e mãe trabalhadora doméstica, Orides enfrentou a escassez como realidade material e matéria-prima estética. Sua estreia com a obra “Transposição” (1969) e os prêmios recebidos por “Alba” (Jabuti, 1983) e “Teia” (APCA, 1996) revelam uma autora que fez a síntese entre o clássico e a observação da natureza. Para Orides, a cultura elevada não era um privilégio de classe, mas uma ferramenta para interpretar a realidade.
A poeta cultivou uma postura ideológica marcada por uma resistência proletária que se opunha às concessões literárias. Embora tenha se formado em Filosofia pela USP durante a ditadura militar e vivido a agitação política dos anos 60 e 70, Orides escolheu o isolamento pessoal, ao contrário de sua conterrânea Pagu (Patrícia Galvão), cuja vida foi marcada pelo ativismo comunista.
Orides admirava Pagu, mas sua militância era baseada na ética das palavras. Sua postura recebeu o apoio crítico de intelectuais como Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr. e Marilena Chauí. Para Chauí, a política de Orides residia justamente na recusa ao mercado e na manutenção de uma autonomia radical diante da burguesia intelectual.
Mesmo com o reconhecimento acadêmico, a “poeta do proletariado” viveu em meio à precariedade financeira. Sofrendo com crises de depressão e diversos despejos, Fontela faleceu em 1998, vítima de tuberculose, em um sanatório em Campos do Jordão, praticamente em condição de miséria.
A trajetória de Orides destaca uma escritora que nunca abandonou suas origens sociais, elevando a experiência da classe trabalhadora a um nível filosófico.
Um dos seus poemas mais marcantes, que sintetiza a união entre a finitude material e a transcendência do rigor, é “Fala”:
Tudo terá que ser escrito no sangue.
Decifrado no sangue.
Pulsado no sangue. E as palavras — apenas — estancam a hemorragia.
A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) acontecerá entre 22 e 26 de julho de 2026 e terá como foco a obra de Orides Fontela (1940-1998).
O post A voz da proleta em Paraty: Orides Fontela é homenageada da Flip 2026 apareceu primeiro em Vermelho.
