Uma pesquisa da Serasa, em conjunto com o Instituto Opinion Box, revelou que 81% das mulheres brasileiras não possuem uma reserva de emergência para lidar com eventuais imprevistos, um percentual que supera o registrado entre os homens. O estudo ainda indica que somente 17% das mulheres conseguem arcar com todas as suas despesas mensais e ainda economizar parte de sua renda, enquanto essa taxa é de 29% entre os homens, evidenciando uma situação mais vulnerável financeiramente para elas.
No entanto, a dificuldade em acumular reservas financeiras não é uma realidade restrita apenas ao público feminino. Dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro 2026, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, apontam que 31% da população brasileira não possui qualquer tipo de reserva financeira para enfrentar situações inesperadas. Contudo, entre as mulheres, o cenário se torna ainda mais alarmante.
A pesquisa também destaca que as mulheres enfrentam um orçamento mais apertado. Cerca de 30,3% das entrevistadas afirmam que sua renda não é suficiente para cobrir todas as despesas mensais. Em contrapartida, esse índice entre os homens é de 21,5%.
Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, explica que a dificuldade em construir uma reserva financeira está diretamente relacionada ao comprometimento da renda com despesas essenciais.
“Os dados indicam que muitas mulheres priorizam o fechamento do orçamento mensal, o que resulta na negligência do planejamento financeiro a longo prazo. Muitas vezes, elas também são responsáveis pela gestão das finanças domésticas e conciliam essa função com suas jornadas de trabalho“, comenta ela.
Além disso, a pesquisa revela que quitar dívidas pendentes se tornou a principal preocupação financeira das mulheres brasileiras, citada por 45% delas. Para os homens, esse número é de 43%.
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Maioria dos inadimplentes é composta por mulheres
A dificuldade em acumular reservas financeiras reflete-se nos índices de endividamento. De acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa referente a maio de 2026, as mulheres correspondem a 50,5% dos consumidores inadimplentes no Brasil.
Comparando com o mesmo período do ano anterior, houve um aumento de 9,2% na inadimplência feminina, enquanto entre os homens esse crescimento foi de 7,8%.
Desigualdade salarial e carga de cuidado explicam a situação
Os resultados dessa pesquisa estão alinhados com indicadores recentes sobre a condição econômica das mulheres no Brasil. O Censo Demográfico de 2022 do IBGE revela um aumento no número de mulheres responsáveis pelo sustento e pela organização dos lares. Atualmente, 13,5% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres sem cônjuge vivendo com filhos; em contrapartida, apenas 2% dos lares são chefiados por homens nessa mesma condição.
A divisão desigual do trabalho também é evidente. Dados do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que as mulheres dedicam cerca de 21,4 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de outras pessoas — quase duas vezes mais que as 11 horas que os homens dedicam a estas atividades. Ao mesmo tempo, elas recebem em média um salário inferior em aproximadamente 20,9% comparado ao masculino.
A combinação entre uma renda menor e uma carga maior de trabalho não remunerado contribui para explicar por que as mulheres enfrentam mais dificuldades na formação de reservas financeiras. Com um orçamento já apertado e menos oportunidades para aumentar sua renda, sobra menos espaço para economizar ou enfrentar despesas inesperadas sem recorrer ao crédito.
Esse contexto também ajuda a entender por que elas estão em maior número entre os consumidores inadimplentes. Mais do que uma questão individual relacionada à gestão financeira pessoal, os dados sugerem que a dificuldade em construir uma reserva emergencial está conectada às desigualdades persistentes no mercado laboral e à distribuição desigual dos trabalhos domésticos e cuidados familiares, responsabilidades que continuam recaindo predominantemente sobre as mulheres.
