A visita de dois dias do presidente Xi Jinping à Coreia do Norte constituiu um dos principais marcos diplomáticos do ano na Ásia, evidenciando a longa história de colaboração entre Pequim e Pyongyang. Ao ser recebido nesta segunda-feira (8) pelo líder norte-coreano Kim Jong-un e pela primeira-dama Ri Sol Ju, Xi chegou à capital da Coreia do Norte envolto em calorosas manifestações de amizade e alianças estratégicas.
Este é o primeiro deslocamento oficial do líder chinês ao país desde 2019, acompanhado por sua esposa, Peng Liyuan, além de uma delegação de alto escalão que incluía o chanceler Wang Yi e Cai Qi, diretor do Gabinete Geral do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh). A escolha de Pyongyang como o primeiro destino internacional de Xi neste ano carrega um forte simbolismo político.
Conforme relatos da agência estatal chinesa Xinhua, grandes multidões se reuniram nas ruas para receber a comitiva chinesa, enquanto bandeiras dos dois países enfeitavam as vias públicas. Esse gesto refletiu a intenção mútua das duas nações socialistas em fortalecer uma parceria que já é fundamentada em décadas de solidariedade política, econômica e militar.
No atual contexto internacional de crescente presença militar dos Estados Unidos no Leste Asiático, a visita sublinha que Pequim não abandonará Pyongyang frente às pressões exercidas por Washington. As declarações proferidas durante o banquete de boas-vindas oferecido por Kim reforçam essa perspectiva.
Xi destacou que, após 65 anos do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua entre China e Coreia do Norte, as relações estão em um novo marco histórico. Segundo informações da Xinhua, essa amizade, que resistiu às mudanças no cenário global, tem se tornado cada vez mais robusta ao longo do tempo.
<pO líder norte-coreano Kim Jong-un enfatizou que a visita evidencia a grande relevância que Xi atribui ao fortalecimento das relações bilaterais. Para ele, a presença do presidente chinês representa um valioso suporte à causa socialista da Coreia Popular.
No dia 9, os dois líderes realizaram uma visita conjunta à Torre da Amizade China-Coreia e prestaram tributo aos fundadores dessa ligação histórica. Na Escola Central de Formação de Quadros do Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC), plantaram um abeto juntos – uma árvore perene escolhida pela Xinhua para simbolizar a amizade eterna e renovadora entre os dois países.
Em um artigo publicado no Rodong Sinmun, na véspera da visita, Xi declarou que China e Coreia devem “avançar juntas nas adversidades, herdando o passado e abrindo novos caminhos”. Ele ressaltou que a amizade sino-coreana foi forjada “com sangue” durante os combates anti-imperialistas do século XX e continua sendo “uma escolha estratégica firme” para ambos os povos.
Coordenação estratégica
A importância estratégica dessa agenda é reconhecida até mesmo pela imprensa ocidental. Em uma análise veiculada pela BBC, especialistas apontam que o encontro ocorre num momento em que cresce a presença militar dos EUA na região e se solidificam as alianças entre EUA, Japão e Coreia do Sul. Para esses analistas, a aproximação entre China e Coreia é uma resposta geopolítica às tentativas de cerco promovidas pelo bloco ocidental.
Xi manifestou o desejo de Beijing em aprofundar a coordenação estratégica com Pyongyang em várias frentes, incluindo desenvolvimento econômico, intercâmbio político e cooperação internacional. Ele incentivou ambas as partes a aproveitarem a reabertura total das fronteiras e o retorno dos voos comerciais e trens internacionais para intensificar os intercâmbios populacionais.
Para Kim Jong-un, também secretário-geral do PTC, as relações com a China são fundamentais. O líder norte-coreano exaltou o papel desempenhado por Pequim na manutenção da estabilidade regional e reafirmou seu compromisso com o multilateralismo e a soberania nacional. Além disso, Kim reiterou que seu país irá defender inabalavelmente o princípio da Uma Só China e respaldar as posições chinesas na proteção de seus interesses essenciais.
Em um relato da Xinhua, Xi criticou práticas associadas ao “hegemonismo” e à “política da força”, fazendo uma alusão indireta à política externa dos EUA. Essa postura está alinhada com a narrativa histórica da Coreia Popular, que há anos denuncia sanções econômicas impostas por Washington e tentativas de isolamento internacional.
Outro aspecto relevante da visita foi a reafirmação dos vínculos históricos entre os partidos comunistas das duas nações. A diplomacia chinesa sublinhou que a amizade entre Pequim e Pyongyang é sustentada por uma tradição revolucionária comum desde o período da Guerra da Coreia.
Esse elemento simbólico foi evidente tanto nos discursos oficiais quanto nas recepções organizadas pelas autoridades norte-coreanas. Ao mesmo tempo em que a Coreia Popular rompe parcialmente com o isolamento midiático ocidental ao acolher um dos principais líderes mundiais numa visita amplamente divulgada pela mídia internacional.
Nesta terça-feira (horário local), Xi deixou Pyongyang. Kim Jong-un e Ri Sol Ju foram pessoalmente ao aeroporto para uma cerimônia de despedida significativa. O líder norte-coreano classificou a visita como um completo sucesso e enviou uma mensagem positiva ao mundo sobre uma cooperação ainda mais fortalecida entre as duas nações. No contexto das crescentes tensões no Leste Asiático, a viagem de Xi Jinping à capital norte-coreana indica que China e Coreia Popular pretendem aprofundar sua colaboração política e estratégica diante das mudanças na ordem mundial.
