Assistindo a Hamnet, lembrei-me várias vezes de Bárbara Heliodora, a maior especialista na obra de William Shakespeare que tivemos no Brasil. Fiquei pensando: qual ou quais aspectos do filme ela iria espinafrar, terror que foi entre o meio teatral pelas rigorosas, quase impiedosas resenhas que do alto de sua sapiência e maestria escrevia e publicava sobre montagens diversas, que dirá de obras do, ou sobre o, imortal bardo elisabetano, fosse em palcos ou nas telas.
Aclamadíssimo pelo vasto público e, ao que parece, com poucas exceções de desagrado, seria dificílimo (e inócuo) tentar um exercício assim de adivinhação quanto a Hamnet, uma vez que a estudiosa e tradutora de sua obra faleceu em 2015. Mas me arrisco a dizer que Bárbara aprovaria pelo menos a principal característica do autor da tragédia de Hamlet, salientada na concepção do roteiro de Hamnet pela cineasta Chloé Zhao — ou seja, a intensidade amorosa que ele dedicou aos seres humanos, traço que perpassa toda a sua extraordinária obra dramática.
As novas gerações do advento da internet provavelmente conheçam a fama do nome William Shakespeare; talvez saibam de cor o verso antológico da tragédia de Hamlet “ser ou não ser, eis a questão”; quem sabe conheçam o Romeu e Julieta da versão cinematográfica de Zefirelli; talvez possam associar Shakespeare a Macbeth, a Othelo, ou a outras referências pontuais. Mas saber que o amor imenso pela humanidade e pela natureza constitui-se como uma marca registrada do dramaturgo poeta, talvez seja privilégio de literatos, estudantes de teatro e curiosos especiais. Afinal, quem, se não especialistas leriam, decodificariam e nos ensinariam a sua vasta e diversa obra, composta por 38 peças e 154 sonetos, escritos entre 1589 e 1613?
A imensa capacidade de amar do homem e do artista aflora ao longo de toda a sua obra escrita em verso e em prosa lírica, trágica e cômica, ensinava Bárbara Heliodora Carneiro de Mendonça em salas de aulas, assim como em palestras, em textos críticos e nos livros de suas traduções.
E a diretora de Hamnet estampou exemplarmente esse traço no enredo, ao enfatizar ao longo de todo o filme o comovente clima amoroso mantido por Shakespeare com a mulher Agnes e seus três filhos.
Baseado num best seller cujo título é um imediato spoiler (Hamnet: A história antes de Hamlet), Maggie O’Farrell inventou o seu enredo com total liberdade, à moda aliás do próprio Shakespeare, que não criou os antológicos personagens de suas peças, mas desenvolveu suas histórias a partir das originais de outros autores.
Então, se a trama gira em torno da vida comezinha da camponesa Agnes, a mulher do dramaturgo, a ênfase recai na dramaticidade de sua luta e dor maternas com a peste bubônica que acomete os gêmeos do casal. Quem assistiu sabe e quem ainda vai ver irá saber que é de fato melodramático o foco do filme. Mas como não ser, girando em torno de Shakespeare, exímio em tragédias, e de seu amor transbordante?
A intensidade dramática da atriz que interpreta Agnes (Jessie Beckley) sobrecarregou um bocado essas características, salientando positiva e negativamente a força do sentimento no contexto familiar.
Bárbara Heliodora ensinava isso: que na construção da obra shakespeareana se sobressai o amor a seu país, aos conterrâneos, aos humildes, aos ricos, aos famosos, aos bons e até aos maus, com destaque sobretudo para o romântico amor juvenil, o entre marido e mulher, entre pais e filhos.
Como nesses tempos medonhos temos convivido com o sentimento do ódio no ar, nos maravilhamos, quando não estranhamos o derramamento intenso dos sentimentos opostos a ele. Mas o fato é que o sucesso do filme não faz outra coisa que corroborar essa leitura de que o amor sem limites de WS foi responsável por sua capacidade de se comunicar e de embevecer gente do mundo todo. E de todos os tempos.
Tive lampejos da impressão de exageros vendo o filme, mas me lembrei das lições da emérita professora, de quem tive a sorte e a honra de ser aluna, na Faculdade de Arte Dramática da então FEFIEG (hoje UniRio), em meados dos anos 1970. E me corrigi o foco.
O grand finale do filme atesta tudo isso, quando Chloé Z., Maggie O., também Bárbara H. e Shakespeare, digamos, se reúnem na cena da revelação de Hamnet em Hamlet, e o público expressa com as mãos um espontâneo, solidário, reverente gesto de apoio ao jovem que cumpre a promessa de vingar o pai traído.
Bem, e o resto é silêncio. Um sublime e emocionado silêncio, que agrega todas as plateias do filme.
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