Cerca de 50 mil manifestantes se mobilizam no Japão em oposição ao projeto de rearmamento

No último domingo (3), aproximadamente 50 mil manifestantes se concentraram em Tóquio para expressar sua oposição à proposta do governo japonês de alterar a Constituição atual, sob o pretexto de lidar com ameaças internacionais.

A iniciativa, promovida pela primeira-ministra Sanae Takaichi, sugere modificações no Artigo 9º, que caracteriza o Japão como um país pacifista, com o objetivo de incluir as Forças de Autodefesa no texto constitucional.

Desde fevereiro, diversas cidades têm sido palco de protestos que refletem a insatisfação popular em relação a essa proposta e à percepção dos cidadãos sobre uma possível ruptura do compromisso histórico do Japão com a paz.

Hiroko Maekawa, conselheira em Tóquio, comentou: “Sob a liderança de Takaichi, o Japão está seguindo os Estados Unidos como um cachorro segue seu dono. O PLD deseja transformar as Forças de Autodefesa em um exército convencional, ciente de que a Constituição atual impede essa mudança.”

Outra conselheira local, Megumi Koike, elogiou a Constituição japonesa, referindo-se a ela como “um tesouro nacional e também um patrimônio para o mundo”.

“Takaichi presume que a maioria dos japoneses deseja modificar a Constituição devido a uma alegada ameaça da China e da Coreia do Norte, mas isso não corresponde à realidade”, afirmou. “Devemos priorizar investimentos em saúde, educação e geração de empregos ao invés de aumentar nosso arsenal militar.”

As manifestações aconteceram em várias cidades, reunindo pessoas que viveram o período pós-guerra e veem na Constituição uma garantia de estabilidade e paz duradouras.

Durante um protesto em Osaka, Haruka Watanabe, uma mulher de 87 anos, declarou: “Quero proteger a Constituição como se fosse meu filho e passá-la para as próximas gerações”, conforme relatado pela agência Kyodo News.

Os manifestantes interpretam que a proposta de revisão constitucional também é uma resposta às pressões externas, especialmente por parte dos Estados Unidos.

A crítica ao governo de Sanae Takaichi está ligada ao alinhamento deste com a estratégia militar americana na região, especialmente diante do aumento das tensões no Indo-Pacífico.

Ainda que as manifestações expressem forte oposição à mudança proposta, pesquisas recentes revelam uma sociedade dividida sobre o assunto.

Um levantamento realizado pelo Yomiuri Shimbun indica que 57% dos entrevistados apoiam alguma forma de revisão da Constituição, enquanto uma pesquisa do Asahi Shimbun aponta que 47% são favoráveis à reforma.

A Constituição japonesa está em vigor desde 3 de maio de 1947 e não sofreu alterações desde sua promulgação. O Artigo 9º é fundamental nesse texto legal, estabelecendo o caráter pacifista do Estado e renunciando à guerra como direito soberano. Esse artigo foi criado durante a ocupação americana liderada pelo general Douglas MacArthur após a Segunda Guerra Mundial.

O Japão foi derrotado nesse conflito e passou por um processo de reorganização sob controle dos Estados Unidos após ter sido parte do eixo com Alemanha nazista e Itália fascista. Durante esse tempo, o país havia expandido seu domínio sobre regiões na Ásia, incluindo partes da China, fator que influenciou diretamente a criação de uma Constituição com restrições ao uso da força militar.

China critica militarismo sob liderança de Takaichi

A potencial alteração no Artigo 9º é acompanhada com preocupação por países vizinhos, especialmente pela China. Pequim tem manifestado suas preocupações com o que considera um ressurgimento do militarismo japonês e associa essa mudança à intensificação da colaboração militar entre Japão e Estados Unidos no Indo-Pacífico.

Autoridades chinesas alertam que medidas como a flexibilização das regras para exportação de armas e as discussões sobre o papel das Forças de Autodefesa representam riscos significativos para a estabilidade regional.

Recentemente, o governo chinês classificou as declarações feitas por Takaichi sobre Taiwan como “interferência nos assuntos internos da China” e reafirmou o princípio da Uma Só China como fundamental nas relações bilaterais entre os dois países.

Para Pequim, qualquer movimento do Japão rumo a uma postura militar mais assertiva — principalmente em questões delicadas como o Estreito de Taiwan — quebra compromissos históricos estabelecidos após a guerra e aumenta as chances de escalada nas tensões na região.

By Aconteceu de Fato

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