Aumento das tensões na Bolívia: Evo Morales sugere novas eleições em três meses

A crise social que abala a Bolívia sob o governo de Rodrigo Paz se intensifica, com bloqueios em pelo menos seis departamentos, confrontos com as forças de segurança e um aumento da pressão política pela saída do presidente.

No último domingo (25), o ex-presidente Evo Morales sugeriu a realização de novas eleições no prazo máximo de 90 dias como uma solução para a crise e alertou que a possível militarização do país seria uma “decisão suicida”.

<pDurante seu programa na Rádio Kawsachun Coca, Morales declarou que Paz se encontra em um dilema: “ele pode optar por uma decisão suicida, que é a militarização, ou escolher um caminho de pacificação, transição e eleições em 90 dias”.

O ex-mandatário boliviano argumenta que as manifestações refletem o desgaste social gerado pelas políticas neoliberais implementadas pelo governo desde novembro de 2025, que incluem o fim dos subsídios aos combustíveis e iniciativas de privatização.

As mobilizações começaram no início de maio devido à inflação e à falta de combustível, mas rapidamente evoluíram para pedidos diretos pela renúncia do presidente.

Recentemente, os protestos se espalharam para localidades como Cochabamba, Santa Cruz, Potosí e Chuquisaca. Os bloqueios nas estradas têm impactado o abastecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis em diversas cidades bolivianas.

A Central Operária Boliviana (COB), principal entidade sindical do país, decidiu não participar de negociações com o governo até que os mandados de prisão contra seus dirigentes sejam revogados e os trabalhadores detidos durante os protestos sejam liberados.

Entre os líderes visados pelas ordens de prisão está Mario Argollo, secretário-executivo da COB.

Conforme informações da Administradora Boliviana de Estradas, atualmente existem 59 bloqueios rodoviários distribuídos entre seis dos nove departamentos do país. No sábado (24), uma segunda operação policial e militar para desobstruir a principal via entre La Paz e Oruro não obteve sucesso.

A operação denominada “Corredor Humanitário com Bandeiras Brancas” contou com tratores, policiais e militares que utilizaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Após a passagem da caravana oficial, os bloqueios foram restabelecidos com pedras, terra e troncos.

Na mesma data, o Senado boliviano aprovou um projeto que visa revogar a Lei do Estado de Exceção, criada em 2020 para regular medidas extraordinárias adotadas pelo governo em situações críticas.

Se essa proposta for aprovada também pela Câmara dos Deputados, Rodrigo Paz terá menos restrições legais para decretar estados de exceção e ampliar suas operações repressivas.

A iniciativa recebeu apoio de setores empresariais e grupos cívicos vinculados à direita boliviana.

O Comitê Pró-Santa Cruz, um dos principais opositores ao ciclo político iniciado por Evo Morales, manifestou publicamente sua posição favorável à decretação de um “estado de exceção setorizado” para liberar as estradas e controlar os protestos.

Entretanto, organizações sociais, sindicatos e entidades dedicadas à defesa dos direitos humanos alertaram sobre os riscos dessa proposta agravar ainda mais a crise política e permitir uma escalada na repressão.

Em nota conjunta, a Igreja Católica, a Defensoria do Povo e a Assembleia Permanente de Direitos Humanos de El Alto exigiram o fim da violência, a abertura ao diálogo e uma investigação “urgente, independente e transparente” sobre as denúncias relacionadas a feridos, mortos e abusos durante as operações policiais.

A COB também orientou suas bases a garantir passagem livre para ambulâncias, equipes médicas e transporte de medicamentos em todos os pontos de bloqueio do território nacional.

A entidade reafirmou seu compromisso em preservar “a saúde e a vida” da população mesmo diante do agravamento do conflito.

Os protestos estão reunindo sindicatos, organizações camponesas, indígenas, estudantes, professores e transportadores em um ambiente reminiscentes das grandes insurreições populares bolivianas no início do século XXI.

No cerne das mobilizações está a rejeição ao programa econômico implementado por Rodrigo Paz. Ele é acusado pelos manifestantes de desmontar direitos sociais fundamentais, promover privatizações e aumentar a dependência externa da economia boliviana.

Por outro lado, o governo atribui responsabilidade às mobilizações ao ex-presidente Evo Morales. A administração atual afirma que os protestos representam uma ameaça à estabilidade institucional e econômica do país. No entanto, Morales refuta essas acusações alegando que a revolta é resultado direto da insatisfação popular acumulada contra as políticas neoliberais adotadas pelo governo atual.

By Aconteceu de Fato

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