Desigualdades históricas persistem apesar dos progressos na educação, revela pesquisa

Nas últimas décadas, as iniciativas governamentais focadas em aumentar o acesso à educação têm promovido mudanças significativas no panorama do ensino superior no Brasil. A introdução do Programa Universidade para Todos (Prouni) e a implementação da Lei de Cotas facilitaram a entrada de estudantes provenientes de grupos historicamente marginalizados nas universidades. De acordo com informações do Ministério da Educação (MEC), desde 2013, 790.177 alunos beneficiados por cotas ingressaram em instituições públicas por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). O Prouni, que foi criado durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já contabiliza mais de 27,1 milhões de inscrições e concedeu 7,7 milhões de bolsas ao longo de seus 21 anos.

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Esses números ilustram uma mudança significativa no perfil da juventude brasileira. Entretanto, a simples presença na escola ou na universidade não garante o acesso às mesmas oportunidades. Fatores como gênero, raça e situação socioeconômica ainda desempenham um papel crucial na capacidade das pessoas em converter anos de estudo em empregos qualificados e autonomia financeira.

Essa é a principal conclusão apresentada na coletânea intitulada Juventudes Brasileiras Minorizadas: análises sobre educação e trabalho para incidência em políticas públicas, elaborada pela Fundação Roberto Marinho, Itaú Educação e Trabalho, IEDE e UNICEF.

Ainda que os estudos contidos na publicação abordem realidades diversas, eles convergem para um diagnóstico comum: os avanços educacionais não foram suficientes para eliminar as desigualdades históricas que ainda afetam o acesso ao mercado de trabalho e as chances de ascensão social.

Conforme aponta a coletânea, 74,9% dos jovens em extrema pobreza são negros. Dentre essa população vulnerável, as mulheres negras constituem 40% do total, tornando-se o grupo mais expressivo entre aqueles que enfrentam as maiores dificuldades econômicas e sociais.

Esses dados corroboram uma das principais conclusões da pesquisa: a pobreza, o racismo e a desigualdade de gênero não atuam isoladamente. Ao contrário, eles se inter-relacionam, criando barreiras que impactam a escolarização, as condições laborais e as perspectivas de mobilidade social.

A dinâmica descrita permeia os diversos capítulos da coletânea: seja ao investigar os efeitos da gravidez na adolescência ou ao analisar a participação feminina em setores estratégicos como ciência e tecnologia. Os estudos demonstram que certos grupos continuam enfrentando dificuldades significativas para converter avanços educacionais em melhores condições de vida.

Quando as desigualdades se acumulam

Um dos capítulos dedicados à gravidez na adolescência ilustra como desigualdades relacionadas a gênero, raça e renda se reforçam ao longo da vida. Apesar da redução da proporção de partos entre adolescentes — que caiu de 18,9% em 2014 para 11,4% em 2024 — a maternidade precoce ainda está predominantemente concentrada entre jovens negras, pobres e residentes em áreas periféricas. Em 2022, a taxa de fecundidade adolescente no Brasil foi registrada em 43,6 nascimentos por mil meninas com idade entre 15 e 19 anos, um número significativamente superior à média observada nos países com renda média-alta (27,8 por mil). Nas regiões Norte e Nordeste do país, essas taxas alcançam até 17,5% e 13%, respectivamente.

Para Alessandra Sampaio Chacham, a maternidade precoce revela como diferentes formas de desigualdade se sobrepõem ao longo da vida. “A gravidez na adolescência é tanto um marcador quanto um mecanismo que perpetua desigualdades relacionadas à classe social, raça, gênero e localização geográfica. Portanto, é essencial que as políticas públicas adotem uma abordagem interseccional que leve em conta as especificidades desse fenômeno em diferentes faixas etárias”, afirma.

A análise indica que os impactos são mais severos quando a gestação ocorre entre os 10 e 16 anos. Nesses casos específicos, a maternidade frequentemente interrompe trajetórias escolares já fragilizadas, diminuindo as chances dessas jovens completarem o ensino médio ou acessarem o ensino superior. Além disso, essas adversidades refletem-se no mercado de trabalho onde elas encontram maior dificuldade para obter empregos formais e acabam sendo direcionadas para ocupações precárias com baixa remuneração.

A desigualdade racial agrava ainda mais esse cenário complexo. O capítulo revela que jovens negras têm maior probabilidade de engravidar precocemente enquanto enfrentam níveis inferiores de escolaridade e rendimento familiar mais baixo além de estarem mais expostas à violência doméstica.

<pNesse contexto desafiador, a maternidade precoce deve ser vista menos como uma causa isolada da vulnerabilidade e mais como parte integrante de um ciclo já estabelecido de desigualdades. A gestação não marca o início da exclusão; frequentemente ela se acumula sobre trajetórias já afetadas por pobreza extrema, racismo e evasão escolar.

Funil de gênero

Outro capítulo analisa a presença feminina nas carreiras STEAM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática), setores que concentram muitos dos empregos mais qualificados na economia contemporânea. Os dados demonstram uma contradição significativa: embora as mulheres representem 55% dos novos ingressantes no ensino superior, elas ocupam apenas 38% das posições nessas áreas.

As autoras Regina Nobre Vargas e Anna Maria Canavarro Benite nomeiam esse fenômeno como “funil de gênero”. Apesar dos avanços na educação formal das mulheres, elas continuam enfrentando barreiras ao tentar acessar ou permanecer em áreas historicamente associadas ao prestígio acadêmico e aos altos salários.

Quando cruzamos gênero com raça nesse contexto desafiador das carreiras STEAM as disparidades se intensificam. Jovens brancos compõem 63,4% dos profissionais nessas áreas enquanto jovens negros correspondem a apenas 34,8%. Dentro desse segmento feminino no setor STEAM ,71 ,6% são brancas enquanto apenas 28 ,4% são negras.

A sub-representação se torna ainda mais acentuada nas áreas consideradas mais prestigiadas cientificamente. Mulheres negras representam apenas 10 ,6% dos trabalhadores STEAM enquanto nos campos relacionados à Computação , Matemática ,e Ciências Naturais essa porcentagem cai para apenas 7 ,8%. Em contrapartida , homens brancos dominam com uma participação correspondente a 37 ,9 % nessas profissões.

A questão salarial também evidencia desigualdades significativas nesse cenário. Nas áreas STEAM , as mulheres recebem cerca de 19 % menos do que seus colegas homens . No caso dos jovens profissionais atuando nessa área , homens brancos têm uma renda média mensal estimada em R$5 .692 enquanto mulheres negras recebem R$4 .368 .

Segundo as pesquisadoras responsáveis pelo estudo , esses dados indicam que embora ampliar o acesso ao ensino superior seja fundamental isso não tem sido suficiente para desmantelar desigualdades estruturais ligadas ao gênero e à raça . As barreiras persistem durante toda trajetória profissional desde o ingresso nas áreas valorizadas até as oportunidades disponíveis posteriormente bem como os salários recebidos por conta desse trabalho.

Diferentes trajetórias , desigualdades semelhantes

Ainda que abordem grupos distintos , os capítulos voltados às juventudes quilombolas , rurais e LGBTQIAPN+ chegam a conclusões similares . Mesmo em contextos variados , os obstáculos são recorrentes : escolas distantes das residências , infraestrutura inadequada , necessidade constante de conciliar estudo com trabalho além da discriminação enfrentada junto às políticas públicas.

No caso das juventudes quilombolas , embora ações afirmativas tenham ampliado o acesso ao ensino superior ainda persiste uma precariedade nos serviços públicos disponíveis nas comunidades além das dificuldades relacionadas à permanência escolar assim como desigualdade econômica limitando oportunidades futuras . Para aqueles oriundos do campo , questões como falta de instituições educacionais próximas além das exigências do mercado laboral impulsionando uma inserção precoce contribuem também para trajetórias marcadas pela evasão escolar ou migração urbana .

No capítulo referente às juventudes LGBTQIAPN+ fica evidente que discriminação gera consequências não só subjetivas mas também impacta diretamente aspectos como permanência educacional construção vínculos institucionais inserções profissionais criando barreiras cumulativas ao longo da vida

Marcus Barão autor do texto introdutório dessa coletânea destaca que combater tais desigualdades requer muito mais do que iniciativas pontuais ; é necessário desenvolver políticas permanentes capazes atender diversidade presente nas juventudes brasileiras . Este debate adquire relevância num contexto onde existem aproximadamente46 .5 milhões jovens brasileiros entre15-29 anos enquanto o país enfrenta um processo acelerado envelhecimento populacional .

A publicação vai além por reunir diagnósticos sobre diferentes grupos específicos ; ela ressalta um ponto comum presente todos capítulos : embora tenha havido progresso significativo no acesso educacional ; oportunidades permanecem distribuídas desigualmente . A escola junto universidade abriram portas milhares jovens brasileiros ; agora cabe garantir essas trajetórias realmente possam resultar empregos dignos rendimentos concretos perspectivas futuras promissoras .

By Aconteceu de Fato

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