Solidariedade ao povo saharaui fortalece isolamento de EUA, Israel e Marrocos, afirma embaixador

Ahamed Mulay Ali Hamadi, representante da Frente Polisário, afirma que à medida que as violações contra seu povo se tornam mais evidentes, “a adesão à luta pela independência e autodeterminação aumenta”.

Em uma entrevista exclusiva, Ahamed Mulay Ali Hamadi, embaixador da Frente Polisário no Brasil, enfatiza a importância da solidariedade internacional para a luta do povo saarauí por autonomia. Ele faz uma avaliação bastante otimista sobre sua recente visita a São Paulo, onde se reuniu com líderes sindicais e partidos progressistas.

Veja abaixo a íntegra da conversa.

Vermelho: Como você avalia o atual momento crítico que o mundo enfrenta?
Ahamed Mulay Ali Hamadi: Primeiramente, gostaria de expressar minha gratidão pelo espaço que nos foi oferecido para apresentar a situação do povo saarauí à América Latina e ao mundo. Estamos atravessando um período muito preocupante devido ao crescimento da extrema-direita em diversos países. Essa ideologia já conquistou vitórias eleitorais e governa nações cujos líderes — incluindo Donald Trump, o rei marroquino Mohammed VI e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel — estão criando condições adversas para os povos, tentando distorcer a justiça e as normas do direito internacional, além de enfraquecer as Nações Unidas, que é a única entidade global que tem contribuído para um ambiente mais estável.

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos em novembro trazem duas perspectivas. Uma indica que Trump pode perder apoio conforme os cidadãos se afastam dele, possibilitando maior espaço para defensores do direito internacional. A outra visão é alarmante: se ele fortalecer sua posição, isso será desastroso para todos e dará a Trump liberdade para implementar suas ideias nocivas até o final de seu mandato.

No tocante ao Conselho de Segurança da ONU e outras instâncias diplomáticas, observamos uma discrepância entre o que se fala e o que realmente se pratica por parte dos EUA. O caso do Saara Ocidental ilustra bem essa situação.

Qual é sua opinião sobre o afastamento dos EUA em relação à ONU?
Recentemente recebemos um relatório do secretário-geral das Nações Unidas que aborda detalhadamente o direito do povo saarauí à autodeterminação — um direito garantido pela Carta das Nações Unidas e sustentado por decisões judiciais do Tribunal de Haia, da Corte de Justiça da União Europeia, da Corte Africana de Justiça e até mesmo pela justiça espanhola.

No entanto, enfrentamos a resistência de Trump e seus aliados no Conselho de Segurança, que tentam minimizar esses direitos e até vender o Saara ao Marrocos — enquanto o rei marroquino demonstra disposição para negociar a Palestina com Israel. Esse cenário tem paralisado o Conselho de Segurança; suas decisões estão sob controle desses indivíduos. Agora resta saber como essa situação irá evoluir. De nossa parte, estamos determinados a persistir na nossa luta até alcançar a vitória definitiva.

Devido a esse impasse político, outubro será um mês decisivo para a causa saarauí.
Sim, será um período crucial para nós, pois haverá três reuniões no Conselho de Segurança da ONU focadas na situação do nosso povo, no seu direito à autodeterminação e nas discussões entre o Reino do Marrocos e a Frente Polisário.

Esses debates estão em curso no Conselho de Segurança e nos preocupa enormemente o que Trump possa fazer em detrimento de nossos interesses em favor do rei marroquino. O monarca já declarou apoio ao sionismo contra a Palestina e planeja abrir uma embaixada em Israel.

A respeito das torturas enfrentadas por presos políticos saarauís e das mobilizações por sua libertação, como isso tem repercutido?
A realidade na zona ocupada pelo Marrocos é extremamente degradante; os direitos humanos são amplamente desrespeitados. Os saarauís sofrem com ações brutais da polícia e do exército marroquinhos. Há registro de desaparecimentos forçados, perseguições sistemáticas e torturas.

Diante dessa brutalidade, há um grupo de prisioneiros que entrou em greve de fome devido às condições insuportáveis nas prisões marroquinas. Esse grupo está ligado ao famoso movimento Gdeim Izik — que envolveu milhares de tendas montadas por famílias deslocadas rumo ao deserto e perseguidas pelo exército marroquino.

Esta é a realidade que enfrentamos atualmente. Quero também agradecer aos partidos e movimentos internacionais — especialmente os brasileiros — que têm divulgado mensagens apoiando os prisioneiros saarauís e fazendo apelos à ONU pela justiça.

Como você percebe o acolhimento por parte dos movimentos sociais e dos partidos progressistas brasileiros às suas denúncias?
Tivemos várias reuniões com sindicatos e centrais sindicais. Fui convidado pelo presidente Claudio Fonseca para participar do Congresso do Sindicato dos Profissionais da Educação do Município de São Paulo — representando 50 mil trabalhadores — onde pude me dirigir a quatro mil delegados.

Conversei também com Roberto Guido, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado (Apeoesp), agradecendo pelo apoio durante nossa última caravana solidária. Além disso, tive conversas produtivas com Adilson Araújo e Ronaldo Leite da CTB sobre as questões enfrentadas pelo povo saaraui. Essas interações foram extremamente relevantes. Também concedi entrevistas e me reuni com dirigentes dos partidos PCdoB, PT e PSOL, que têm estado ao nosso lado na luta pela liberdade.

No próximo mês teremos uma nova caravana solidária. Como estão os preparativos?
Desde 2023 iniciamos anualmente uma caravana destinada a levar brasileiros para vivenciar a história e cultura saarauís; assim como sua luta por autodeterminação. Estamos organizando esta caravana deste ano para novembro.

As inscrições estão abertas até 25 de outubro. Nas edições anteriores participaram mais de 100 brasileiros entre jornalistas, professores, estudantes, sindicalistas e políticos diversos. Portanto convido todos os brasileiros interessados em conhecer esta parte da África — sua cultura rica, história marcante e resistência — a entrar em contato conosco.

Quais são seus desejos em relação ao Brasil após as eleições?
Nossa esperança é sempre ver melhorias para o povo brasileiro; tenho plena confiança de que escolherão no segundo turno um presidente comprometido com educação, saúde pública adequadas alimentares e bem-estar social.

Anseio por um Brasil forte como nunca antes visto; espero que no dia 25 o país saia mais unido aos povos globais, defendendo os direitos internacionais e atuando como aliado das Nações Unidas.

Aproveito para fazer um apelo aos brasileiros: conheçam a história desse único país árabe hispanofalante — uma antiga colônia espanhola agora sob invasão marroquina apoiada por Trump, Israel e França.

Desejo força ao povo saarauí na busca por seus objetivos. A República Árabe Saarauí Democrática já conta com reconhecimento formal por 84 países no mundo inteiro sendo membro fundador da União Africana. Faço um apelo respeitoso ao presidente Lula para seguir o exemplo dado à Palestina reconhecendo também nosso Estado; tal reconhecimento poderia representar um apoio significativo à ONU ao direito internacional e à paz no Norte da África.

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By Aconteceu de Fato

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