O Oriente Médio vivencia um novo capítulo em seu conflito, que vai além das batalhas tradicionais com armas e mísseis: agora, a luta pelo controle das infraestruturas digitais que sustentam as guerras modernas se intensifica. Enquanto o Irã aprimora suas capacidades de ataque com uma precisão nunca vista antes, especialistas alertam para uma alteração estratégica significativa — a adoção do sistema de navegação por satélite BeiDou, da China, em lugar do GPS dos Estados Unidos.
Em conversas com o Portal Vermelho, o sociólogo Sergio Amadeu, professor da UFABC e especialista em tecnologia da informação e comunicação, juntamente com Ergon Cugler, pesquisador no Conselho Nacional de Pesquisa e conselheiro da Presidência da República, discutem como a questão da soberania digital evoluiu de um tema técnico para uma preocupação de segurança nacional.
Big Techs: novos alvos na guerra
Segundo Sergio Amadeu, a dinâmica atual das guerras exige uma reavaliação do papel das grandes empresas de tecnologia. “Enquanto reverenciamos as Big Techs e depositamos dados governamentais e acadêmicos nelas, o Irã as considera alvos militares legítimos”, ressalta. Essa postura não é meramente retórica; empresas como AWS, Oracle e Microsoft foram efetivamente atacadas devido à sua conexão direta ou indireta com os esforços bélicos de Israel e dos EUA.
Amadeu enfatiza que o Irã desenvolveu suas próprias capacidades — incluindo drones, mísseis e uma indústria de defesa robusta — e emprega táticas assimétricas inteligentes. “Eles usam armadilhas como mísseis e drones desarmados para serem derrubados por sistemas interceptadores que custam milhões”, explica. Enquanto os Estados Unidos investem enormes quantias em defesa, Teerã consegue desgastar seus adversários com operações mais econômicas.
A digitalização do campo de batalha
Ergon Cugler amplia a discussão ao afirmar: “Quem acredita que a guerra se resume apenas a tanques e fuzis está preso ao passado”. Para ele, as rivalidades em um mundo multipolar e altamente tecnológico também ocorrem na “nuvem” — referindo-se não à metáfora comum, mas sim aos datacenters subterrâneos conectados globalmente por cabos submarinos.
A crescente dependência tecnológica se transformou em uma vulnerabilidade estratégica. Cugler recorda que durante tensões comerciais, Donald Trump chegou a considerar restringir o acesso do Brasil ao GPS. “Houve quem dissesse que era mentira, mas a verdade é que ficamos reféns de uma decisão política que Trump poderia tomar a qualquer momento”, alerta.
BeiDou: rompendo o monopólio norte-americano?
Lançado pela China em 2020, o sistema BeiDou surge como uma alternativa real ao GPS. Com 45 satélites em órbita — comparados aos 24 do sistema americano — o BeiDou oferece precisão inferior a um metro para usuários autorizados e recursos avançados contra interferências, como mudança de frequência e autenticação nas mensagens de navegação.
Análises indicam que o Irã firmou um memorando em 2015 para integrar o BeiDou à sua infraestrutura militar, acelerando essa transição após firmar a Parceria Estratégica Abrangente Sino-Iraniana em 2021. A conclusão dessa migração está prevista para junho de 2025 e pode coincidir com um aumento notável na precisão dos ataques iranianos.
Em contextos contestados onde sinais podem ser bloqueados ou falsificados, confiar em um único sistema satelital representa um risco estratégico considerável.
Soberania digital como instrumento de poder
Cugler argumenta que no cenário multipolar atual “a tecnologia deixa de ser apenas um ativo comum e passa a ser moeda de troca no chamado soft power”. Nações que detêm controle sobre infraestruturas digitais têm o poder de influenciar ou coagir países dependentes.
A resposta global ao domínio americano já se inicia: enquanto a União Europeia desenvolve o Galileo, a Rússia mantém o Glonass e países como Índia e China investem em seus próprios sistemas. “Por isso é essencial discutir não apenas a soberania territorial de um país, mas também sua soberania digital”, defende Cugler. “Sem isso, torna-se inviável pensar em qualquer possibilidade de se libertar das amarras daqueles que controlam as infraestruturas.”
O Brasil diante do dilema tecnológico
As experiências do conflito iraniano ecoam especialmente no Brasil. Enquanto se debate sobre regulação das plataformas digitais e proteção dos dados pessoais, a dependência das infraestruturas controladas por potências estrangeiras ainda é pouco abordada sob a ótica da segurança nacional.
Amadeu alerta que o Brasil replica vulnerabilidades passíveis de exploração em momentos de tensão geopolítica. A presença de datacenters pertencentes a corporações americanas no território brasileiro — sem garantias de soberania ou controle público — compromete não apenas os dados armazenados ali, mas também afeta a autonomia decisória do Estado.
Tecnologia como questão geopolítica
A possível adoção do BeiDou pelo Irã — caso confirmada — não seria apenas uma manobra técnica; representaria uma indicação clara da fragmentação da arquitetura tecnológica global. Em um mundo onde tecnologias como navegação por satélite, nuvem computacional e inteligência artificial definem capacidades econômicas e militares, assegurar a soberania digital tornou-se imprescindível.
Cugler sintetiza: “O Irã já deixou claro: não podemos depender dos Estados Unidos nem mesmo para dirigir pelas ruas”. Para países que buscam autonomia estratégica, fica evidente que desenvolver capacidades próprias e diversificar parcerias tecnológicas é mais do que uma necessidade; trata-se de questão vital para sua sobrevivência.
