Algumas músicas se tornam a trilha sonora de diversas gerações, enquanto existem mulheres que, sem almejar essa posição, acabam simbolizando uma época. Maria do Carmo Leal dos Santos, conhecida como Duca, não solicitou ser a “Indiazinha” da canção Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, lançada em 1972. O seu destino foi moldado pelo tempo e por um encontro em Belo Horizonte, que a situou no epicentro de um dos períodos mais criativos da música brasileira.
Aos 70 anos, Duca apresenta ao público não apenas sua figura icônica, mas também a protagonista de Histórias de Outras Esquinas, uma obra que emerge de diários, cartas e da rica memória de quem vivenciou a ditadura, o amor, a maternidade e a arte com profunda intensidade.
Durante sua passagem por São Paulo para o lançamento do seu livro artesanal, Duca compartilhou suas experiências com o Portal Vermelho, exibiu fotografias antigas e narrou histórias daquele vibrante período da musicalidade mineira.
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A esquina que me escolheu
Duca relata: “Não fui eu quem escolhi o Clube da Esquina; foi ele quem me encontrou”. Sua narrativa vai além da perspectiva de uma mera observadora; trata-se da vivência intensa de alguém que respirou a efervescência cultural dos anos 70 em um Brasil sufocado pela censura.
No bairro Santa Tereza, no Rio de Janeiro, sua residência funcionava como um verdadeiro abrigo. Ali, ela escondeu José Carlos da Mata Machado, um militante torturado e assassinado pelos militares, mesmo ciente do risco à sua própria liberdade. Ela temia que seu marido saísse de casa e não retornasse apenas por ter cabelos longos. Além disso, Duca foi uma fervorosa defensora da anistia e organizou um show em agosto de 1979 com artistas como Gilberto Gil e Luiz Melodia para protestar contra a greve de fome dos presos políticos.
“A repressão era tão opressiva que acabou se manifestando através da arte”, reflete. As canções eram filtradas pela censura e os cabelos longos eram alvo de perseguições; o medo era um companheiro constante. Contudo, como ela mesma observa, a criatividade brotava mesmo onde tentavam silenciar. “Se não fizessem música, iam acabar enlouquecendo. Não se tratava de fama; era uma necessidade espiritual.”
Feminismo vivido na prática
Duca não usava camisetas estampadas com frases ou discursos acadêmicos sobre feminismo. Para ela, essa luta se expressava nos atos: ao recusar descer do bonde quando o cobrador a advertiu; pela certeza de que sua voz tinha o mesmo peso que a dos homens; e pela decisão de manter sua independência antes mesmo de se casar aos 16 anos.
<p“Eu não falava sobre feminismo; eu simplesmente o vivia”, afirma. Essa postura levou-a além do papel inspirador. Ela tornou-se produtora do primeiro disco independente brasileiro (Aline), idealizou Os Borges e viu suas composições serem interpretadas por grandes nomes da MPB: Outro Cais, na voz de Elis Regina, e Pros Meninos, com Milton Nascimento. “Eu precisava encontrar minha própria identidade. Não bastava ser apenas a esposa do Marcinho ou mãe dos meus filhos; eu queria ser Duca também.”
Outras esquinas com memórias semelhantes
A obra não é uma crônica formal sobre o movimento mineiro; trata-se de um mapa afetivo. Ao escrever, Duca optou por utilizar a terceira pessoa ao referir-se a si mesma como “Indiazinha” e ao Márcio Borges como “Poeta”. “Foi necessário me distanciar para não criticar a jovem que fui”, justifica.
Nas 400 páginas do livro estão entrelaçados diários juvenis, correspondências com Salomão Borges, fotos raras e poesias inéditas. “É quase como um gibi”, diverte-se.
A obra vai além da simples documentação musical; ela captura a trajetória de uma mulher que aprendeu a lidar com escassez financeira, separações e militância pela anistia enquanto descobria que cada vida tem seu próprio clássico escondido. “Toda vida rende um livro. A minha talvez mereça ser contada por ter atravessado esse período efervescente.”
O girassol imortal
No momento atual, Duca reside em um sítio em Betim (MG), é avó de cinco netos e mãe do jovem ativista comunista Rafael Leal (ex-presidente nacional da UJS – União da Juventude Socialista). Ao observar as novas gerações, ela não enxerga repetição, mas continuidade: “É maravilhoso ver esses jovens engajados na política. Isso é esperança para nós”, afirma.
O Clube da Esquina já transcendeu seu status inicial e se tornou patrimônio cultural. E Um Girassol da Cor do Seu Cabelo continua florescendo – não como uma relíquia distante, mas como prova viva de que a arte surge dos encontros feitos com coragem nas esquinas desafiadoras da vida.
Ler Histórias de Outras Esquinas é mergulhar na história de uma mulher que nunca desejou se tornar símbolo da beleza moderna mineira mas nos ensina que memória é o único girassol eterno.
A publicação sobre Duca Leal destaca sua trajetória atemporal e suas novas narrativas surgidas das esquinas vividas ao longo dos anos.
