O ministro Kassio Nunes Marques, que preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu suspender de forma liminar a divulgação, o impulsionamento e a continuidade da pesquisa eleitoral realizada pelo Instituto AtlasIntel, registrada sob o número BR-06939/2026.
A decisão foi tomada nesta segunda-feira (8) e responde a um pedido do Partido Liberal (PL). O plenário da Corte analisará se mantém ou revoga essa suspensão nesta terça-feira (9). A pesquisa, que foi inicialmente divulgada em 19 de maio, revela uma diminuição nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à presidência, em um possível segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva.
A liminar já está em vigor e impede a AtlasIntel de compartilhar qualquer material relacionado à pesquisa em seus canais oficiais até que haja uma decisão final por parte dos ministros do tribunal.
A proibição gerou reações adversas de especialistas em direito eleitoral, associações de institutos de pesquisa e figuras políticas. Muitos consideram a decisão como um ato de censura, argumentando que visa ocultar informações desfavoráveis à candidatura bolsonarista.
Este caso é particularmente significativo, pois representa o primeiro grande conflito sob a liderança de Nunes Marques, que foi indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Juristas, advogados e partidos políticos têm expressado preocupações sobre os precedentes criados por essa decisão em um ano eleitoral. Eles questionam quais critérios a Corte utilizará para fiscalizar metodologias e garantir a livre circulação de informações durante as eleições de 2026.
A pesquisa da AtlasIntel entrevistou 5.032 eleitores entre 13 e 18 de maio de 2026 e apresentou uma margem de erro de um ponto percentual com nível de confiança de 95%. No cenário hipotético do segundo turno, Lula aparece com 48,9% das intenções de voto enquanto Flávio Bolsonaro tem 41,8%, representando uma queda aproximada de seis pontos percentuais em relação ao levantamento anterior do mesmo instituto.
A queda nas intenções ocorreu logo após a divulgação pública de áudios e mensagens nas quais o senador solicitava recursos financeiros ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar uma cinebiografia sobre seu pai chamada Dark Horse.
Em resposta ao contexto político, o questionário da pesquisa incluiu um bloco específico com oito perguntas relacionadas ao episódio e às alegações sobre fraudes financeiras envolvendo a instituição bancária, além do impacto eleitoral desse escândalo na imagem do pré-candidato.
No documento apresentado ao tribunal, o PL argumentou que “o questionário ultrapassou seu objetivo original” e foi elaborado para induzir respostas negativas sobre o parlamentar. A legenda alegou que a ordem das perguntas poderia contaminar os resultados obtidos.
Ao aceitar parcialmente o pedido liminar, Nunes Marques mencionou uma entrevista do CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, à CNN Brasil. Na entrevista, Roman comentava sobre o potencial impacto negativo do áudio na imagem do senador. O ministro considerou que essas declarações apoiavam os argumentos apresentados pela legenda e indicavam possíveis falhas na neutralidade metodológica da pesquisa.
A alteração na relatoria do caso por Nunes Marques também é resultado de uma mudança recente nas normas internas do TSE, considerada por alguns como casuísmo. Três dias após o PL protocolar sua ação, o presidente do TSE publicou uma resolução alterando como processos relacionados à propaganda eleitoral seriam distribuídos. Anteriormente centralizados na ministra Cármen Lúcia através da ministra Estela Aranha, agora esses casos são divididos entre Nunes Marques, o vice-presidente André Mendonça e Aranha por meio de sorteio. Essa mudança retirou a relatoria das mãos da ministra Estela Aranha e transferiu-a para Nunes Marques.
Em comunicado oficial, a AtlasIntel afirmou que seguirá as orientações do tribunal e está apresentando todos os esclarecimentos técnicos solicitados dentro dos prazos estabelecidos. A empresa reiterou categoricamente que não houve indução nas respostas dos entrevistados. Segundo eles, as perguntas sobre intenções de voto foram respondidas antes dos participantes terem acesso ao conteúdo audiovisual relacionado ao Banco Master. Após concluir esse formulário principal sem possibilidade de retorno, os entrevistados foram redirecionados para uma seção separada onde podiam reagir ao áudio usando tecnologia própria.
Além disso, o instituto destacou que pesquisas subsequentes realizadas por outras empresas como Quaest e Datafolha também mostraram padrões semelhantes nas quedas nas intenções de voto para Flávio Bolsonaro. Isso sugere que os dados suspensos refletem uma tendência real da opinião pública frente ao escândalo político em vez de serem frutos de distorções metodológicas.
A validação ou revogação da liminar será decidida nesta terça-feira (9) durante sessão no plenário virtual do TSE. Os ministros Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Dias Toffoli, Antonio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva, Floriano Azevedo Marques Neto e Estela Aranha compõem o colegiado responsável pela votação. Nos corredores jurídicos em Brasília existe expectativa quanto a um resultado dividido dentro da Corte. Observadores acreditam que Nunes Marques pode manter sua posição pela suspensão da pesquisa contando com apoio provável dos ministros André Mendonça e Antonio Carlos Ferreira. Em contrapartida, Estela Aranha e Floriano Azevedo Marques Neto estão buscando votos divergentes para restaurar a pesquisa. O posicionamento dos ministros Dias Toffoli e Villas Bôas Cueva será crucial para determinar o resultado final; projeções preliminares indicam uma margem apertada entre 4 a 3 ou 5 a 2 favorável à chancelamento dos argumentos técnicos da defesa ou à tese apresentada pelo PL sobre contaminação dos resultados.
