Protestos em massa cercam La Paz contra administração de Rodrigo Paz

A Bolívia enfrenta sua mais severa crise política e social desde a ascensão ao poder do ultraliberal Rodrigo Paz. Há mais de duas semanas, o país tem sido marcado por manifestações, bloqueios de estradas e uma greve geral liderada pela Central Operária Boliviana (COB), com o apoio de sindicatos de camponeses, grupos indígenas, professores, mineiros e transportadores, resultando em uma intensa convulsão social.

No último dia 18, uma grande marcha partiu de El Alto rumo a La Paz, exigindo a renúncia imediata do presidente. Em resposta, o governo adotou medidas repressivas, incluindo prisões e a militarização das vias que levam à capital.

A escalada do conflito ocorre em um contexto de rápida degradação das condições econômicas no país. A decisão do governo de retirar subsídios para combustíveis gerou um aumento significativo no custo de vida, elevando os preços dos alimentos e provocando escassez de diesel e gasolina.

Grupos populares acusam Paz de implementar um programa de austeridade que favorece os interesses do Fundo Monetário Internacional (FMI), corporações transnacionais e do agronegócio, quebrando compromissos históricos estabelecidos pelo Estado plurinacional boliviano durante os governos do Movimento ao Socialismo (MAS).

A tensão também aumenta em torno do ex-presidente Evo Morales. Seus apoiadores alertam sobre uma suposta perseguição política que poderia resultar em prisão ou até assassinato do líder indígena. Setores populares associam essa situação às recentes ações dos EUA contra governos e lideranças da América Latina.

Morales acusa diretamente Washington, a DEA e o Comando Sul dos EUA de estarem colaborando com o governo boliviano em ações contra ele.

A nova fase dos protestos contra Rodrigo Paz na Bolívia

As mobilizações que já duram mais de duas semanas tiveram início com demandas salariais e contestação ao aumento do custo de vida. No entanto, rapidamente evoluíram para um movimento nacional que critica abertamente o governo de Rodrigo Paz.

Organizações como a COB, a Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), os Ponchos Vermelhos e diversos sindicatos urbanos passaram a exigir publicamente a saída do governo após as repressões policiais recentes.

A intensidade das manifestações cresceu especialmente após uma operação realizada no sábado (16), quando forças de segurança tentaram desbloquear as estradas que circundam La Paz e El Alto.

Pelo menos quatro manifestantes perderam a vida e dezenas ficaram feridos durante esses eventos. Além disso, já foram contabilizadas mais de 57 detenções nas operações para desbloquear as vias.

Os protestos continuam paralisando parcialmente o país. Mais de 70 bloqueios rodoviários foram registrados em diversas localidades, impactando diretamente o fornecimento de combustíveis e alimentos. Em La Paz, filas nos postos de gasolina e escassez de produtos básicos intensificaram a insatisfação popular contra o governo.

A COB denuncia que o governo tenta impor um pacote neoliberal que compromete direitos históricos dos trabalhadores e abre caminho para privatizações em setores estratégicos.

O sindicalista Mario Argollo afirmou recentemente: “não estamos pedindo a saída deste presidente incompetente porque somos insanos; é porque não apresentaram soluções claras para o país”.

Reformas econômicas levantam revolta popular

A crise teve como principal catalisador o Decreto Supremo 5503, que retirou subsídios aos combustíveis e permitiu maior investimento estrangeiro nos setores de mineração, energia e infraestrutura.

Tais mudanças resultaram em aumentos exorbitantes nos preços da gasolina — até 86% — e no diesel — mais de 160%. O impacto foi imediato nos custos alimentares e no transporte.

Mineiros cooperativistas relatam interrupções nas atividades devido à falta de combustível enquanto sindicatos urbanos afirmam que o custo da vida se tornou insuportável em poucos meses sob este governo.

Outro ponto central da revolta é a chamada Lei 1720 ou “Lei Marinkovic”, conforme nomeada por setores camponeses.

Grupos indígenas e rurais afirmam que essa legislação favorece o agronegócio permitindo a conversão de pequenas propriedades comunitárias em ativos financeiros sujeitos à penhora bancária, colocando em risco territórios históricos dos camponeses e dos povos originários.

As mobilizações revelam também um desgaste acentuado na proposta política apresentada por Rodrigo Paz.

Prometendo estabilidade econômica sem desmantelar direitos sociais durante sua campanha eleitoral, agora ele justifica as reformas alegando ter herdado um “país quebrado”, aproximando-se das diretrizes sugeridas por organismos multilaterais e pelo mercado financeiro internacional.

A resposta governamental: repressão e criminalização

A reação do governo boliviano exacerbou ainda mais as tensões. As autoridades classificaram os protestos como tentativas de “desestabilização” e autorizaram operações policiais massivas para desbloquear estradas e dispersar manifestantes.

Nesta segunda-feira passada, um mandado judicial foi emitido contra Mario Argollo, secretário executivo da COB, sob acusações como “instigação pública ao crime” e “terrorismo”.

A central sindical denunciou perseguição política afirmando que o governo busca silenciar líderes operários através da criminalização dos movimentos sociais.

Argollo respondeu afirmando: “não irão nos dobrar na luta que travamos” enquanto acusava o governo de utilizar processos judiciais como forma de intimidar lideranças populares.

A COB também alertou sobre como as Forças Armadas estão sendo equipadas com gás lacrimogêneo enquanto a população enfrenta escassez e inflação crescente.

Organizações sociais afirmam que essa repressão atual evoca momentos críticos da história boliviana, lembrando especialmente os conflitos ocorridos em 2003 quando manifestações contra políticas neoliberais resultaram em massacres culminando na queda do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

Evo Morales denuncia plano dos EUA visando sua captura

Evo Morales emergiu como uma figura central nesta crise. Refugiado politicamente em seu bastião no Chapare, cercado por apoiadores, ele denunciou publicamente um plano orquestrado entre os Estados Unidos e o governo boliviano para prendê-lo ou até assassiná-lo.

Mencionou ainda que Washington teria instruído Rodrigo Paz a realizar uma operação militar com apoio da DEA e do Comando Sul dos EUA.

O ex-presidente acrescentou que agentes norte-americanos estão operando junto às Forças Armadas bolivianas no intuito de reprimir seus apoiadores.

Tais denúncias surgem em meio ao temor entre seus aliados sobre uma possível captura semelhante à recente ofensiva dos EUA contra Nicolás Maduro e outras lideranças latino-americanas vistas como adversárias estratégicas por Washington.

O Executivo boliviano acusa Morales não apenas de incitar os protestos mas também por promover um plano para “desestabilizar a ordem constitucional”.

No entanto, Evo nega essas alegações indicando que o governo intenta transformar toda mobilização social em questão policial ao vincular sindicatos com tráfico de drogas.

Mientras isso ocorre, seus apoiadores organizam vigílias ao redor da residência dele no Chapare para proteger Evo diante da possibilidade de uma ação militar iminente.

Sustentação norte-americana intensifica tensões geopolíticas

Os Estados Unidos manifestaram apoio explícito ao governo Rodrigo Paz durante esse período turbulento. O Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental declarou seu respaldo aos esforços oficiais visando “restaurar a ordem”.

A administração norte-americana reiterou seu apoio à busca pela “restauração da ordem, paz e estabilidade”. Contudo, movimentos sociais na Bolívia veem essa posição americana como confirmação da aliança entre o novo governo boliviano com os interesses estratégicos dos EUA na região andina.

O presidente colombiano Gustavo Petro descreveu esta situação como uma “insurreição popular” colocando-se à disposição para mediar as tensões. Ele enfatizou que América Latina deve ser ouvida numa perspectiva pacífica diante das circunstâncias atuais.

— Gustavo Petro (@petrogustavo) May 17, 2026

No panorama dessa crise boliviana cresce a percepção sobre sua profundidade além das disputas imediatas. Para sindicatos, organizações indígenas e setores populares está em jogo não só o futuro econômico boliviano mas também a soberania sobre recursos naturais assim como a própria natureza plurinacional do Estado construído nas últimas décadas através da luta popular intensa.

By Aconteceu de Fato

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