1º de abril: o dia em que a realidade se disfarça de brincadeira

No Brasil, uma intensa disputa vai além da política, abrangendo aspectos históricos, morais e educativos. Como é comum em conflitos dessa natureza, a manipulação de símbolos e datas é um dos pontos centrais.

O golpe civil-militar que ocorreu em 1964 não se consumou no dia 31 de março, conforme insistiu a versão oficial ao longo dos anos. Na verdade, ele se concretizou em 1º de abril, o Dia da Mentira. Essa não é uma mera curiosidade: trata-se de uma estratégia deliberada para moldar a memória coletiva.

Ao alterar a data do acontecimento, os próprios agentes do golpe já estavam ensaiando uma prática que caracterizaria o regime: reescrever a história para torná-la aceitável.

O movimento que teve à frente o general Olímpio Mourão Filho — o mesmo envolvido no Plano Cohen de 1937, um documento forjado para justificar o golpe do Estado Novo — partiu de Minas Gerais no dia 31 de março. Contudo, foi apenas no dia seguinte que a situação política e institucional se consolidou, com o poder sendo tomado e as oposições silenciadas.

A cronologia dos eventos expõe uma contradição à narrativa oficial: não só o golpe teve como base a mentira, mas também foi sustentado por ela.

Milagre endividado

Entre verdades e inverdades, realmente houve um crescimento econômico entre 1969 e 1973. O chamado “milagre econômico” fez com que o PIB crescesse em índices significativos, alimentando a propaganda oficial sobre a eficiência do regime militar.

No entanto, esse milagre veio acompanhado de um alto custo: dívidas externas sem precedentes, concentração extrema de renda e um arrocho salarial sistemático. O crescimento econômico não trouxe consigo a distribuição justa de riqueza nem uma sustentabilidade real.

Com as mudanças no cenário internacional provocadas pelo choque do petróleo em 1973 e pela elevação das taxas de juros do crédito externo, as consequências foram devastadoras.

No final das contas, o regime militar legou ao País inflação descontrolada, crises fiscais e um longo período de estagnação econômica. O que foi vendido como um milagre revelava-se na realidade como um experimento de crescimento artificial sustentado por endividamento crescente e exclusão social.

Segurança seletiva

A afirmação de que “o Brasil era mais seguro” durante a ditadura é uma meia-verdade que se revela uma construção ideológica ao ser analisada mais profundamente. Para certos grupos da chamada “classe média” que não confrontavam o regime, havia sim uma sensação de ordem — ainda que baseada no medo generalizado e na restrição das liberdades civis.

No entanto, para negros, pobres, trabalhadores, estudantes e artistas rotulados como “subversivos”, o Estado representava uma ameaça diária e institucionalizada.

A repressão se manifestava através de prisões arbitrárias, vigilância constante, censura e violência sistemática. Uma segurança que depende da violação de direitos humanos e da intimidação não é verdadeira segurança; trata-se de controle social seletivo. Era um privilégio desfrutado por poucos às custas do terror imposto à maioria.

Fantasma do comunismo

Outro aspecto central na narrativa da ditadura foi o suposto combate ao comunismo iminente. Este era um espantalho político amplamente exagerado. João Goulart não era comunista; ele defendia reformas radicais — agrária, educacional, urbana e financeira — dentro dos limites da ordem constitucional.

A figura do “perigo vermelho” foi utilizada como justificativa para interromper processos democráticos que ameaçavam interesses estabelecidos. A retórica anticomunista serviu como licença para práticas autoritárias. Até hoje esse fantasma é invocado por aqueles que desejam restringir as liberdades democráticas.

Além disso, a própria história global demonstra que o comunismo nunca se concretizou plenamente como ideal teórico nem mesmo em países com revoluções socialistas. Portanto, esse inimigo era muito menos real do que conveniente.

Corrupção e conivência

A falta de transparência durante o regime militar não eliminou os casos de corrupção; pelo contrário. Criou condições perfeitas para sua expansão silenciosa. Com uma imprensa silenciada e instituições sob controle estatal, práticas ilegais prosperaram sem maiores dificuldades.

Anos depois vieram à tona provas dessa promiscuidade entre interesses estatais e privados.

Em 2020, a Volkswagen do Brasil reconheceu perante o Ministério Público sua colaboração com a repressão ao denunciar trabalhadores nas fábricas. Isso não foi um caso isolado; tratava-se de uma prática comum entre empresas que se beneficiaram do ambiente autoritário em troca de aliança política e operacional.

Nesse contexto, a corrupção deixou de ser exceção; tornou-se parte integrante do sistema.

Violência estatal

A ideia da “ditadura branda” talvez seja uma das narrativas mais ofensivas à memória das vítimas desse regime opressor. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) documentou 434 pessoas mortas ou desaparecidas devido à repressão política — um número oficial que certamente está aquém da realidade completa.

Pesquisas acadêmicas ampliam essa contagem ao incluir populações indígenas exterminadas por políticas territoriais agressivas e trabalhadores rurais sujeitos à repressão sistemática.

E ainda há milhares de presos políticos torturados ou exilados em silêncio forçado. A violência não era meramente um desvio no sistema; ela era parte fundamental dele. Quando um Estado transforma a repressão em política pública efetiva, nenhum adjetivo atenuador pode suavizar essa realidade.

Não esquecer é resistir

Analisar os eventos de 1964 não deve ser visto como um exercício ideológico revisionista; antes deve ser encarado como uma necessidade democrática urgente.

Sociedades que minimizam seu passado autoritário correm o risco real de repetir esses erros históricos. O debate atual vai além dos fatos acontecidos; trata-se também sobre como escolhemos lembrar esses momentos trágicos e até onde estamos dispostos a ir para preservar nossas liberdades no presente.

No fim das contas, as controvérsias sobre a data do golpe são apenas a superfície de questões muito mais profundas: é a dificuldade histórica do Brasil em encarar seus próprios demônios.

A discussão não gira apenas em torno dos calendários; trata-se essencialmente sobre verdadeiros compromissos com responsabilidade histórica e memória coletiva. Enquanto as mentiras forem percebidas como mais confortáveis que os fatos concretos, o dia 1º de abril continuará sendo menos coincidência e mais um símbolo revelador dessa realidade histórica.

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1 O Plano Cohen foi um documento forjado divulgado em 30 de setembro de 1937 para simular uma “conspiração comunista” visando tomar o poder no Brasil. Esse pretexto foi utilizado pelo então presidente Getúlio Vargas junto com setores das Forças Armadas para instaurar a ditadura do Estado Novo em 10 de novembro daquele ano, resultando no fechamento do Congresso Nacional e na anulação das eleições presidenciais previstas para 1938.

2 A CNV foi criada pelo governo brasileiro com o objetivo de investigar violações graves aos direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 focando especialmente no período da ditadura militar (1964-1985). Estabelecida pela Lei 12.528/11 e instalada em maio de 2012 pela então presidente Dilma Rousseff, suas atividades foram encerradas em dezembro de 2014 após a entrega do relatório final.

By Aconteceu de Fato

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