Democracia brasileira: a ausência feminina no poder revela lacunas importantes

O Brasil se posiciona na 133ª colocação no ranking mundial de representação feminina nos parlamentos, conforme informações recentes da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres. Na Câmara dos Deputados, as mulheres ocupam aproximadamente 18% das cadeiras, enquanto no Senado essa porcentagem é ligeiramente inferior a 20%. Esses índices estão muito aquém da média continental nas Américas, que é de 35,4%, a mais alta do mundo. Apesar de constituírem 51,5% da população e serem a maioria do eleitorado, as mulheres brasileiras continuam sub-representadas em um contexto global onde os homens ocupam mais de três vezes os cargos políticos disponíveis. A discrepância entre esses dados não se limita ao mero número; ela indica um sistema político que, ao invés de corrigir desigualdades históricas, as perpetua.

A secretária nacional de Mulheres do PCdoB, Flávia Calé, enfatiza que o problema vai além das regras eleitorais ou do desempenho das candidaturas. Existe uma engrenagem mais complexa que atravessa diversas áreas da vida social e restringe o acesso feminino aos espaços de decisão.

A distância entre presença e poder

Calé argumenta que a política reflete uma lógica presente em outros setores da sociedade. “A sub-representação das mulheres deve ser analisada numa perspectiva mais ampla. Elas são a maioria em várias áreas, mas raramente ocupam posições decisórias”, destaca. Um exemplo significativo é o campo científico: mesmo com a predominância feminina na base de pesquisadoras, mestres e doutoras, elas permanecem sub-representadas nas lideranças acadêmicas. O acesso existe; no entanto, o controle do poder ainda está concentrado em um pequeno grupo.

A herança da exclusão política

Esse padrão não é fruto do acaso; sua origem remonta a um histórico processo de inclusão tardia das mulheres na cidadania política. Durante séculos, foram excluídas do direito à educação, à participação social e, principalmente, ao voto. “As mulheres foram integradas tardiamente como titulares de direitos políticos. Essa exclusão histórica reflete-se ainda hoje na dificuldade de acesso aos espaços de poder”, observa Calé. O presente não rompe com o passado; ele apenas reorganiza essas desigualdades sob novas formas.

Violência como instrumento de controle

No entanto, embora a história forneça explicações, ela não é suficiente para entender a situação atual. Mecanismos contemporâneos atuam ativamente para sustentar essa exclusão, sendo a violência política de gênero um dos principais fatores. Essa violência não é algo ocasional; trata-se de uma tecnologia de controle que opera tanto nas instituições quanto na esfera pública mais ampla.

“Quando uma mulher sofre um ataque, isso não afeta apenas ela mesma. É uma mensagem para todas as outras”, afirma Calé. Interrupções constantes, deslegitimação das falas femininas, agressões pessoais e ameaças são práticas recorrentes que delimitam quem pode ou não permanecer nesses ambientes. O intuito vai além do constrangimento; busca desencorajar e silenciar.

Extrema direita, redes e monetização do ódio

Esse cenário se agrava com o avanço de forças políticas que utilizam ataques às mulheres como estratégia mobilizadora. Segundo Flávia Calé, a extrema direita tem contribuído ativamente para propagar esse tipo de violência nas redes sociais, onde discursos de ódio ganham força e visibilidade — muitas vezes até gerando lucro financeiro. “O discurso contra as mulheres tem sido incentivado e até monetizado. Isso impacta diretamente na participação feminina na política”, aponta.

Dinheiro, poder e barreiras invisíveis

A exclusão também possui raízes materiais profundas. A dinâmica do sistema político brasileiro favorece aqueles que já possuem poder econômico quando se trata do financiamento das campanhas eleitorais. Nesse contexto, as mulheres enfrentam desvantagens estruturais significativas. “O modelo atual privilegia quem já está nas esferas decisórias econômicas e as mulheres foram historicamente excluídas desses espaços”, afirma Calé. Isso resulta em um ciclo vicioso: menor acesso a recursos implica em menor competitividade eleitoral, perpetuando assim a baixa representação feminina.

Diante desse cenário preocupante, medidas formais como a reserva de candidaturas revelam-se insuficientes se não forem acompanhadas por mudanças mais abrangentes. Para Flávia Calé, é fundamental abordar simultaneamente as questões materiais, culturais e institucionais que limitam a presença feminina na política brasileira. Isso inclui assegurar financiamento adequado para candidaturas femininas, combater efetivamente candidaturas fictícias e enfrentar a violência política de gênero como uma questão estrutural.

Mais do que apenas aumentar números estatísticos, é essencial redefinir as bases da democracia em si mesma. A escassez de mulheres nos círculos decisórios representa um desafio à pluralidade política e à capacidade do sistema de responder às demandas da sociedade que pretende representar.

“Não basta garantir candidaturas; é necessário criar condições reais para que as mulheres consigam participar e permanecer ativas na política”, conclui Calé. Em uma nação onde elas compõem a maioria da população, a sub-representação deve ser vista como uma questão crítica em debate sobre quem realmente detém o direito ao poder.

By Aconteceu de Fato

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