Silvio Rodríguez e Chico Buarque compartilham visões de serpentes nas ruas de Havana

Em um acontecimento que não se via há 34 anos na cena cultural do Atlântico Sul, Francisco Buarque de Hollanda pousou em Havana na última terça-feira (7). Não apenas como um visitante, mas como alguém que mantém uma conexão profunda com a ilha, uma relação que resiste ao tempo e às barreiras geográficas. A convite do cantor Silvio Rodríguez, Chico retornou à Cuba em meio a um cenário de dificuldades econômicas e energéticas, trazendo consigo não só suas composições, mas também caixas de remédios destinadas ao Ministério da Saúde Pública. Esse gesto sutil e significativo já falava muito antes de qualquer nota musical ser tocada.

A união do “Álbum Branco” e o caminho do trovador

O novo álbum é fruto de uma ideia que vinha sendo discutida entre músicos e produtores. Quando o experiente Enrique Carballea sugeriu a Silvio a elaboração do Álbum Branco para Silvio Rodríguez — uma nova interpretação de suas canções clássicas por artistas de diferentes gerações e nacionalidades — a resposta do trovador foi um sorriso cúmplice: “Você está louco… faça o que quiser!”.

Inspirado pela rica diversidade estética do White Album dos Beatles, o disco conta com a participação de artistas como o argentino León Gieco, o brasileiro Chico Buarque e intérpretes mais jovens como Mauricio Rodríguez e Roly Berrío. Cada artista traz sua própria marca, mantendo, no entanto, o respeito pela essência das canções originais. O produtor escolheu o músico catalão Alfred Artigas para infundir novas sonoridades nas composições de Silvio, criando uma harmonia que celebra as diferenças.

Críticos como Joaquín Borges Triana consideram esta obra essencial para a música hispânica contemporânea, enquanto a Billboard Argentina destaca sua ousadia ao lado dos lançamentos recentes de Pedro Aznar e Cítrico.

“Sueño con Serpientes” e o diálogo entre gigantes

A participação de Chico no projeto não foi meramente acidental; ele condicionou sua presença à possibilidade de revisitar sua versão da canção Pequena Serenata Diurna, gravada há quatro décadas. Assim, em 9 de abril, os dois dividiram o estúdio para uma nova interpretação de Sueño con Serpientes, um clássico do primeiro disco de Silvio, Días y flores. Confira abaixo a versão original:

A letra de “Sueño con serpientes” é uma metáfora rica sobre a resistência na luta política e social, abordando a superação constante de desafios e a necessidade contínua de coragem. Em suma, Silvio transformou um pesadelo recorrente em um hino de resistência política, celebrando a luta contra adversidades que parecem intermináveis.

Com arranjos elaborados por Jorge Aragón, a faixa ganha vida através da flauta tocada por Niurka González, contrabaixo por Jorge Reyes, piano por Malva Rodríguez e bateria por Oliver Valdés. Não se trata apenas de uma nova gravação; é um encontro entre trajetórias paralelas: dois compositores que souberam transformar suas canções em reflexos dos seus tempos, unindo poesia e política sem abrir mão da sensibilidade.

Memória, resistência e o futuro da música

A visita de Chico ressoa além dos estúdios. Em um país onde ele carrega laços emocionais há mais de cinquenta anos, o artista reafirma um vínculo que vai além do universo musical. Enquanto críticos elogiam a audácia do Álbum Branco…, os desafios enfrentados na Cuba atual se fazem sentir. É nesse cruzamento — entre as fragilidades do cotidiano e a força da arte — que esse encontro adquire significado.

Chico e Silvio não estão apenas gravando uma música; estão revitalizando um fio de solidariedade que demonstra que a canção pode resistir ao tempo, aos silêncios e aos cercos quando surge da história e do respeito mútuo. A faixa será disponibilizada nas plataformas digitais em breve, chegando não como algo inédito, mas sim como um testemunho vivo.

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By Aconteceu de Fato

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