A ilusão da “moderação”: Flávio Bolsonaro e suas estratégias para 2026

À medida que se aproxima o início da corrida presidencial de 2026, a família Bolsonaro busca adotar uma estratégia de “pivotagem”. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), conhecido como o “filho 01” e pré-candidato ao cargo máximo do Executivo, tenta apresentar aos setores da direita tradicional e ao “mercado” uma imagem de político capaz de dialogar com o centro. No entanto, uma análise dos dados e das declarações feitas no Senado Federal indica que essa suposta moderação pode ser apenas uma manobra de marketing dissimulada.
A estrutura de seus discursos, examinada ao longo de seu mandato, sugere que Flávio não atua como legislador, mas sim como um agitador da extrema direita, transformando a tribuna do Senado em um palco de constantes batalhas culturais. Para manter sua base mobilizada, ele não propõe projetos concretos; seu foco é apontar inimigos.

Dados sobre um mandato voltado para o confronto

Entre 1º de fevereiro de 2019 e 9 de abril de 2026, Flávio Bolsonaro fez 197 intervenções como autor principal no Senado, conforme informações disponíveis no portal da casa legislativa. Este total representa uma estimativa conservadora de entre 37 e 47 horas de discurso na tribuna (aproximadamente 2.500 minutos). Ao contrário do irmão Eduardo Bolsonaro, Flávio demonstra frequência nas sessões e participa ativamente das votações, sem registros significativos de ausências.

Uma investigação detalhada exige a distinção entre intervenções regimentais — como orientações e falas procedimentais — e pronunciamentos substanciais, que realmente expressam posicionamentos políticos relevantes.

Ao desconsiderar essas intervenções técnicas, as falas politicamente significativas revelam o seguinte padrão:

  • 32,2%: confrontos institucionais — críticas ao Supremo Tribunal Federal, principalmente dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes, com acusações sobre censura e perseguição política;
  • 24,4%: ataques diretos ao governo Luiz Inácio Lula da Silva e à esquerda;
  • 15,6%: defesa da família Bolsonaro por meio da construção de uma narrativa vitimista;
  • 11,7%: questões relacionadas à segurança pública, muitas vezes associadas a posturas punitivistas;
  • 6,3%: política externa alinhada às posições de Donald Trump e apoio a Israel;
  • 9,8%: outros assuntos variados, incluindo economia e propostas legislativas gerais.

Análise do tempo na tribuna e foco nos conflitos

A avaliação do tempo gasto na tribuna requer atenção cuidadosa à metodologia utilizada. A duração das falas não está diretamente disponível nos registros do Senado e deve ser inferida pelo padrão das intervenções. Como as falas regimentais tendem a ser breves enquanto os pronunciamentos substantivos são mais extensos — especialmente os políticos — a distribuição do tempo revela um padrão ainda mais centrado no conflito.

A estimativa aponta que cerca de 75% do tempo foi dedicado a ataques à esquerda, ao governo Lula e às instituições; aproximadamente 15% foram utilizados para defesa da família; enquanto menos de 10% abordaram pautas de interesse público que não estavam centradas em interesses pessoais. Em suma,90% do tempo na tribuna foi voltado para confrontos ou para perpetuar narrativas familiares.

A reinterpretação do “lawfare” e a retórica extremista

A estratégia central adotada por Flávio envolve o uso oportuno do termo lawfare, inicialmente utilizado pela defesa de Lula para denunciar perseguições judiciais durante a operação Lava Jato. Ele inverteu completamente este conceito para acusar o STF e Alexandre de Moraes de perseguir sua família.

No dia 14 de agosto de 2024, quando seu pai Jair Bolsonaro aguardava a condenação por tentativa de golpe de Estado, Flávio recorreu ao vitimismo para proteger o clã: “Hoje nos sentimos perseguidos pelo Alexandre de Moraes. […] É a Inquisição! E o que é pior: assim como na Inquisição, um chefe define o crime e condena sem possibilidade de recurso.”

No entanto, esse extremismo atinge seu ápice em afirmações repletas de inverdades destinadas apenas a manter sua base radical engajada. Em um discurso proferido em 17 de julho de 2024 sobre o atentado contra Donald Trump, ele demonizou a esquerda: “A esquerda é boa em matar: matam fetos, matam pela fome.”

No entanto, os fatos são implacáveis: o atirador identificado como Thomas Crooks (morto no local) era um republicano registrado. O FBI confirmou que ele não tinha ligações ou motivações ideológicas associadas à esquerda. As investigações indicaram traços digitais com ideias anti-imigrantes e antissemitas que refletem precisamente a retórica odiosa que Flávio promove.

A falta de iniciativas no Senado

No decorrer dos sete anos em que atuou no Senado, Flávio apresentou 57 propostas legislativas. Apenas uma delas foi aprovada integralmente (PL 3.190/2023, referente ao microcrédito produtivo), embora tenha sofrido vetos parciais por parte do presidente Lula. Três outras propostas avançaram no Senado mas continuam tramitando na Câmara.

Nas votações mais relevantes que chamaram a atenção pública, ele se posicionou contra a reforma tributária (2023) e apoiou o PL sobre dosimetria (redução das penas para condenados pelos eventos ocorridos em 8 de janeiro). Além disso, é coautor da PEC da Anistia (PEC 70/2023), destinada a perdoar os envolvidos nos eventos desse dia; porém essa proposta nunca foi levada para votação no Plenário. Também apresentou requerimentos buscando revogar decretos relacionados ao uso da força por agentes policiais e restrições quanto ao porte legal de armas.

A tentativa dele em parecer “aceitável” para o centro político esbarra na essência da sua natureza política. Para Flávio Bolsonaro, política não é arte do consenso; é um campo onde prevalece a aniquilação. O centro democrático e os setores moderados da direita que se deixarem levar por essa “ginástica cínica” estarão efetivamente concedendo um cheque em branco para perpetuar o caos institucional que o país tanto lutou para superar.

By Aconteceu de Fato

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