O Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se um foco de atenção da extrema-direita, o que demonstra que os ataques à Corte são parte de uma estratégia bem planejada, e não eventos isolados. Esse comportamento revela um desprezo significativo por princípios democráticos e pelo Estado de Direito. Nesse cenário, é fundamental que aqueles que defendem a democracia confrontem essa movimentação de maneira constante e firme.
Essa abordagem política visa enfraquecer uma instituição que, em momentos críticos recentes, tem atuado como um baluarte contra ameaças à democracia.
Após os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, em que a Corte se tornou protagonista no enfrentamento de ações antidemocráticas, para a extrema-direita, o STF passou a ser visto como o principal adversário a ser atacado e desmantelado.
A escolha desse alvo não é aleatória. Ao direcionar suas críticas ao Judiciário, esses grupos buscam desacreditar decisões judiciais, politizar as atividades da Corte e, em última análise, reconfigurar os limites do Estado de Direito.
Cálculo eleitoral e discurso político
Neste contexto, destaca-se a atuação do ex-governador Romeu Zema (Novo), que se apresenta como pré-candidato à Presidência da República.
Ao intensificar suas críticas ao STF — incluindo produções que zombam dos ministros e promessas de criar um “novo Supremo” — Zema parece operar em duas frentes: dialoga com uma base eleitoral já cética em relação às instituições e aumenta sua visibilidade no cenário político nacional.
Dessa forma, seu cálculo é tanto político quanto eleitoral.
No entanto, essa retórica não é neutra. Ao insinuar práticas ilícitas entre os ministros ou sugerir mudanças na estrutura da Corte, seu discurso ultrapassa o limite da crítica legítima e adentra um território perigoso para as instituições.
A resposta dos próprios membros do STF, como as reações do ministro Gilmar Mendes, mostra que tais declarações são vistas não apenas como posicionamentos políticos, mas também como potenciais fontes de desinformação e deslegitimação da entidade responsável por proteger a Constituição.
Papel questionável da mídia
<pUma parte da mídia brasileira tem amplificado essas declarações sem a análise crítica necessária, contribuindo assim para o aumento do conflito.
Não se trata de defender a censura ou o silêncio — conceitos incompatíveis com a democracia — mas sim reconhecer que a responsabilidade editorial da mediação jornalística é essencial.
Quando ataques institucionais são tratados como meras controvérsias políticas sem o devido contexto, cria-se um ambiente onde situações excepcionais tornam-se normais e críticas destrutivas ganham status de debates legítimos.
Isso resulta na erosão gradual da confiança pública nas instituições.
Dilema interno do STF
A reação do STF frente a esse cenário não é unânime. Dentro da Corte existe uma divisão significativa: alguns ministros defendem uma resposta mais firme com uso ampliado de ferramentas legais para enfrentar os ataques; enquanto outros preferem uma postura mais contida, receosos de que reagir diretamente possa alimentar ainda mais a narrativa de politização do Judiciário.
A realidade é que os ataques têm se intensificado e, devido às divisões internas, muitas vezes a Corte não consegue oferecer respostas adequadas nem aos golpistas nem à sociedade.
Esse impasse revela um dilema estrutural: agir com rigor pode reforçar acusações de ativismo judicial; por outro lado, uma postura reservada pode ser interpretada como fragilidade institucional. Em ambas as situações, o custo político pode ser elevado.
Assim sendo, será necessário encontrar um ponto médio entre esses desafios apresentados.
Entre resistência e desgaste institucional
O STF continua sendo um dos principais pilares na contenção de rupturas institucionais no Brasil recente. Contudo, essa centralidade vem com um custo: quanto mais a Corte se envolve na arena política, maior sua exposição ao conflito.
E quanto mais exposta fica, mais precisa manter um equilíbrio interno em relação à imprensa e aos diversos setores democráticos envolvidos — incluindo o governo.
Dessa forma, não está apenas em jogo a imagem do tribunal, mas também o equilíbrio entre os Poderes. A normalização dos ataques sistemáticos ao Supremo — especialmente quando ligados a interesses eleitorais — gera um risco mais amplo: a crítica legítima pode ser substituída por uma lógica corrosiva das instituições.
Nesse clima tenso, o compromisso com a defesa da democracia deixa de ser um consenso básico e passa a tornar-se objeto de disputa política; isso representa um sinal alarmante que o País não deve ignorar.
