O programa de governo apresentado por Romeu Zema (Novo) para as eleições presidenciais de 2026, intitulado “Brasil sem intocáveis”, vai além de um simples conjunto de propostas eleitorais. Trata-se de uma estratégia que visa desmantelar tanto a estrutura do Estado quanto a dignidade dos cidadãos brasileiros. Ao se apresentar como um “choque de gestão”, essa iniciativa reativa um neoliberalismo exacerbado, cujos efeitos históricos são claros: aumento da desigualdade, crescimento da pobreza e uma dependência externa que compromete a soberania do país. Caso seja escolhido nas urnas, esse plano poderá significar um cenário apocalíptico para aqueles que dependem do trabalho para viver.
Com inspiração nas políticas ultraliberais da era Paulo Guedes, Zema parece ignorar os resultados desastrosos que esse tipo de abordagem trouxe para a Argentina. Sob a liderança de Javier Milei, essa mesma receita fez com que a pobreza atingisse mais da metade da população em tempo recorde. O modelo defendido pelo governador mineiro ameaça levar o Brasil ao mesmo caminho: a formação de uma vasta classe de “trabalhadores pobres”, que mesmo estando empregados, lutam para garantir o básico para suas famílias devido à precarização das relações de trabalho.
A erosão da cidadania trabalhista
No centro da proposta de Zema está uma ofensiva contra a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao sugerir um regime “paralelo” que remunera por hora ou tarefa, busca-se institucionalizar o subemprego e perpetuar a precarização laboral. A proposta de eliminar garantias como FGTS e o descanso remunerado não é somente uma violação ao Artigo 7º da Constituição; é uma manobra intencional para reduzir os custos trabalhistas a níveis insustentáveis, ampliando os lucros dos grandes empresários enquanto retira do trabalhador qualquer perspectiva de estabilidade ou planejamento futuro.
A flexibilização extrema proposta não resulta em empregos dignos, mas sim em alta rotatividade e diminuição dos salários. Na visão de Zema, o trabalhador deixa de ser um cidadão com direitos e se transforma em um recurso descartável, sem proteção social em períodos críticos.
Privatizações e perda da soberania
A intenção de privatizar completamente empresas como Petrobras, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Correios configura um ataque ao patrimônio nacional. Com a venda dessas entidades estratégicas, o projeto compromete a capacidade do Estado em promover crescimento sustentável e implementar políticas anticíclicas. Sem esses ativos, o Brasil abandona sua autonomia e passa a depender exclusivamente da vontade dos investidores estrangeiros e das flutuações do mercado global.
Essa nova condição cria um ciclo vicioso: para atrair investimentos externos, o país é obrigado a manter taxas de juros elevadas e adotar políticas austeras que sufocam seu desenvolvimento interno. Enquanto nações como Alemanha e França reestatizam serviços essenciais após falhas na gestão privada, Zema sugere seguir na direção oposta, entregando setores vitais ao controle de monopólios que priorizam lucros em detrimento da acessibilidade e universalidade dos serviços prestados.
Previdência: transferindo riscos aos mais pobres
A defesa pela capitalização da Previdência apresentada por Zema implica na individualização dos riscos sociais. O sistema solidário atual, que assegura uma distribuição justa entre gerações, seria substituído por contas individuais cuja aposentadoria dependeria da capacidade de poupança do trabalhador — algo inviável para grande parte da população que recebe salário mínimo. O exemplo chileno ilustra bem esse fracasso: idosos empobrecidos enquanto o sistema financeiro se enriquece às custas das contribuições sociais.
Ficção fiscal e restrições orçamentárias
A proposta de restabelecer um teto rígido para gastos representa um entrave definitivo ao desenvolvimento. Diferentemente do atual sistema fiscal mais flexível, essa regra congelaria os investimentos em saúde e educação enquanto cresce a população e aumentam as demandas sociais. Isso se traduz na institucionalização da escassez apenas para garantir o pagamento dos juros da dívida pública.
<pAlém disso, a suposta “eficiência” do governo mineiro é apenas uma construção contábil ilusória. O superávit alardeado foi alcançado através do adiamento das dívidas com a União sem resolver problemas estruturais do estado. Trazer essa lógica para o âmbito federal significa administrar o país “com recursos alheios”, empurrando qualquer crise para as futuras gerações.
Impedimentos constitucionais e ataques à democracia
Mais do que impopular, diversas partes desse plano enfrentam questões jurídicas sérias. Propostas que desafiam cláusulas pétreas — como os direitos fundamentais e a separação dos Poderes — esbarram no artigo 60 da Constituição. A postura autoritária em relação ao STF e as tentativas de restringir direitos sociais revelam um desprezo pelo pacto democrático estabelecido em 1988.
Em resumo, o conceito de “Brasil sem intocáveis” revela-se como um Brasil desprovido de proteção aos mais vulneráveis. Quando o mercado assume o comando, a nação torna-se refém das circunstâncias externas. Fica evidente que as propostas de Zema não visam soluções econômicas viáveis; tratam-se sim de um retrocesso civilizatório que aprofunda as desigualdades sociais, concentra riquezas nas mãos de poucos e condena o Brasil à irrelevância no cenário internacional.
